Matrimônio à italiana

Por Leandro Sarmatz

O novo romance de Domenico Starnone parece formar, juntamente com LAÇOS e ASSOMBRAÇÕES, uma espécie de “trilogia sentimental”. Livros que adotam a brevidade da forma para condensar a matéria mais explosiva sobre temas como família, casamento e relacionamento entre pais e filhos

 

Domenico Starnone aprontou novamente. Segredos, seu novíssimo livro (saiu em novembro passado na Itália, agora em junho pela Todavia em magistral tradução de Maurício Santana Dias), é uma copiosa escavação da família e daquilo que mostramos e deixamos de mostrar aos nossos mais próximos. Também é um mergulho, bastante intimista, pela história dos últimos quarenta anos da Itália, em que as preocupações solidárias dos personagens parecem colidir com um país que abraçava a sociedade industrial sem pudor algum. O resultado, com alguma frequência, é a idealização da vida pessoal, a única compreendida como “autêntica” diante do massacre tecnicista. A reação extrema a isso chama-se egotismo.

Como em Laços e Assombrações, imediatamente anteriores, o casamento e o desejo (não necessariamente dentro do casamento, muito antes pelo contrário) organizam a vida dos personagens. No caso do livro mais recente, o casamento de Pietro com Nadia, depois do relacionamento com Teresa e do momento inaugural da trama (o tal segredo), torna-o mais produtivo. A ponto de ele se converter numa celebridade cultural do país. Ele aprecia essa estabilidade. Mas aqui e ali, nas frestas desse arranjo familiar quase ideal, a presença de Teresa se impõe. E o medo (não sem algum prazer masoquista) de ter a confidência revelada move-o para outros arrabaldes emocionais. Ele seria capaz de se perder?

Mais de um resenhista italiano percebeu que, com Segredos, Starnone estaria dando o ponto final em uma “trilogia sentimental” formada justamente por Laços e Assombrações. Leitores mais atilados já haviam percebido isso. Os três livros, em que o autor exercita a forma breve da novela, têm mesmo muito em comum. São como granadas emocionais de potencial devastador. Pequenas peças literárias dispostas a implodir a família, deixando-a em ruínas catastróficas. O exame da relação marido-mulher, de pais e filhos – ou avó e neto, do caso de Assombrações – é de tal forma condensado em energia e negatividade que, ao final de cada trama, seus protagonistas parecem se converter em fantasmas (e o fato de Assombrações retomar Henry James não é mera coincidência). Exauridos, quase esvaziados, praticamente exoesqueleto, os protagonistas que chegam ao final de cada um desses livros estão em seus respectivos limites. Dobraram o cabo da boa esperança faz tempo, só ainda não tinham tomado a devida consciência.

Starnone tem quase 80 anos. Sua obra é vasta, e alguns de seus livros têm 300, 400 páginas. Nos últimos anos, porém, adotou a forma da novela. Brevidade que não significa ligeireza. Tampouco carência de energia. Aqui seu percurso parece evocar o de Philip Roth (1933-2018), cuja obra tardia também se tornou mais sucinta – porém não menos significativa. O Roth final de Homem comum, Indignação, A humilhação e Nêmesis partilha com o autor italiano esse ímpeto de trazer à tona a vida de poucos personagens em torno de um epicentro sentimental cujas consequências costumam ser altamente destrutivas. E ao final sacodem a certeza de todos: de suas próprias criações e de nós, seus leitores assombrados.

 

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Leandro Sarmatz é editor da Todavia.


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