Vinte anos com BONE

Por Jeff Smith

Seu criador reconta a história do cultuado quadrinho

21 de dezembro, solstício de inverno de 2010

O que você faz quando se cansou de esperar que deixem você desenhar? É isso que eu me perguntava em meados da década de 1980. Já fazia alguns anos que eu enviava minhas tiras para os jornais e a sensação era de que nada tinha avançado. Aliás, os lugares de onde eu não recebera uma negativa estavam começando a se tornar raros. Mas fazer o quê? Eu amava histórias em quadrinhos. O cartunismo era a única coisa em que eu me considerava quase bom.

Então um dia, em 1986, na livraria da universidade, comprei um exemplar de Maus, a graphic novel de Art Spiegelman. Pouco tempo depois, comecei a frequentar lojas de quadrinhos, pois tinha ouvido falar da nova abordagem que Frank Miller tinha trazido ao Batman em Cavaleiro das trevas. Quando entrei na primeira loja, descobri um mundo completamente novo; não eram os gibis da minha infância – séries de super-herói infinitas produzidas a toque de caixa por um desfile interminável de desenhistas e roteiristas. Claro que esses gibis ainda existiam, mas o que chamou minha atenção foram as revistas de pessoas que escreviam e desenhavam os próprios personagens: Love & Rockets, dos irmãos Hernandez; Cerebus, de Dave Sim e Gerhard; Eightball, de Dan Clowes, para mencionar apenas algumas. Comecei a comprar edições antigas da RAW e assinei o Comics Journal.

Uma lampadinha de cartum apareceu na minha cabeça. Nessas lojinhas especializadas e apertadas, que mais lembravam um sótão bagunçado, lá no meio das revistas, dos livros de tatuagem, da pornografia, da parafernália do underground e de gibis velhos, onde só colecionadores tinham coragem de pisar, a arte dos quadrinhos ainda pulsava. O talento e a energia que se via lá eram um espanto: equiparavam-se a qualquer era dourada das tiras ou dos gibis! Na época, eu era sócio de uma empresa de animação de algum sucesso. Mas, de repente, a única coisa que eu queria era desenhar Bone e ser quadrinista underground, fazer parte daquela coisa que parecia uma cena nova e empolgante.

Com ajuda de minha esposa Vijaya Iyer, bolei um plano. Íamos fundar uma empresa chamada Cartoon Books e publicar um gibi de Bone: 24 páginas em preto e branco, mês sim, mês não. Cada edição de Bone seria um capítulo inédito do que acabaria constituindo uma só história de 1300 páginas. Na época, guardamos os planos apenas para nós. Os primeiros gibis seriam mais baseados no humor e na aventura, para que os leitores voltassem querendo mais.

Meu ás na manga era a amiga e mentora Lucy Shelton Caswell, curadora da Cartoon Research Library da Universidade Estadual de Ohio. Ela não só tinha arquivos cheios de originais de mestres como Milton Caniff, Walt Kelly, Winsor McCay e George Herriman, que me expuseram os segredos imundos do lápis e do nanquim no papel, mas, enquanto fui aluno de Lucy, pude conhecer cartunistas da estatura de Will Eisner e Art Spiegelman, quando vinham visitá-la durante suas aulas. Will Eisner levou o crédito por cunhar o termo “graphic novel” ao lançar Um contrato com Deus, em 1978, e há muito tempo eu admirava o que ele fizera num quadrinho chamado The Spirit. Mandei a Eisner um boneco de Bone no 1. Ele me enviou uma carta muito generosa, de incentivo, algo que foi inestimável para ajudar a lançar o gibi.

O ano em que Bone começou foi uma caixinha de surpresas em relação às minhas emoções. Eu finalmente tinha começado a desenhar quadrinhos, mas as vendas eram lentas, muito lentas. Vijaya aceitou a oferta de emprego numa start-up no Vale do Silício, então juntamos as tralhas e nos mudamos para a Califórnia. Lembro-me de que terminei Bone no 6 na mesa de um hotel, antes de acharmos a casa onde iríamos morar. Eu tinha que dar uma pausa no desenho e ir para o estacionamento quando as arrumadeiras vinham limpar o quarto.

Aí aconteceu uma coisa sensacional. Eu senti que Bone estava começando a criar vínculos no mundo dos quadrinhos. Numa entrevista, uma estrela jovem e emergente chamada Neil Gaiman deu um apoio enorme a Bone. Conheci Frank Miller na WonderCon, uma convenção perto de San Francisco: recebi dele um tapinha nas costas e uma dose de incentivo. Esbarrei com Dave Sim em outro evento e vi que tinha descoberto um companheiro de viagem. De repente, parecia que Bone estava por todo lugar... nas matérias de revistas especializadas sobre os rumos do mercado... quando era chamada de gibi antiartifício, de garoto-propaganda do Movimento Independente, de novo rumo, de novo mainstream, até de novo movimento dos quadrinhos infantis. Foi inesperado e um pouco acachapante. Tentei ficar focado no que eu tinha de fazer: entregar 22 páginas de gibi mês sim, mês não. Mais ou menos.

Lembro-me de que um dos primeiros embates (pensando agora, é irônico) com a comunidade dos quadrinhos foi com quem chamava Bone de gibi infantil. Decidi ir contra o rótulo porque, na minha cabeça, eu não escrevia um gibi para crianças. Na minha mente, Bone se assemelhava a gibis como o Pogo, de Walt Kelly, e o Thimble Theater, com o Popeye, de E. C. Segar. Quadrinhos que eram lidos por adultos e também pelas crianças. Para ser sincero, no início dos anos 1990 praticamente não se via crianças nas lojas de quadrinhos. Eu tinha medo de que aquele rótulo fosse me afundar.

De algum modo, Bone e eu conseguimos achar um equilíbrio. Vijaya largou o emprego diurno e virou minha sócia em tempo integral, e entramos num ritmo natural que se alternava entre publicar edições do gibi e pegar a estrada para divulgá-las.

O processo de consolidação do Movimento da Publicação Independente – ao lado de colegas como Dave Sim, Colleen Doran, Rick Veitch, Eddie Campbell, Steve Bissette, Larry Marder e tantos outros – é uma coisa da qual me lembro com carinho. Minhas duas grandes memórias do Movimento Independente são: 1) a empolgação com a ideia de que o(a) artista tem controle sobre seu trabalho; e 2) as conversas, num quarto qualquer de hotel (quase sempre a suíte de Dave Sim), com pessoas que tinham as mesmas ideias, no início dos anos 1990; falávamos de quadrinhos e de como incrementar o modelo de negócios para vender esses quadrinhos. Todo mundo dava dicas de como evitar armadilhas e corriam ideias muito boas entre os editores pequenos e independentes – entre elas, a de que deveríamos vender nossos gibis do mesmo jeito que se vendem livros.

Naquela época, as lojas de quadrinhos vendiam gibis no mesmo esquema das revistas, ou seja, todo mês a edição antiga era substituída pela nova e as antigas iam para o depósito. Esses livrinhos nunca seriam reimpressos ou vistos, a não ser que o colecionador os comprasse pelo preço do mercado. Nós queríamos que nosso trabalho continuasse em catálogo.

Pensávamos que a resposta era fazer coletâneas dos nossos gibis em graphic novels – um formato pouco entendido, que a maioria do mercado via como um luxo raro e custoso. Queríamos que fossem coleções baratas, sempre à disposição e sempre em catálogo. A hora de pôr em prática essa ideia havia chegado.

Essa era uma ideia importante sobretudo para Bone, que seria uma única e longa história, e os leitores precisavam ter acesso aos primeiros capítulos de um jeito fácil.

Dar conta de uma narrativa bem comprida, mas que no fim das contas ia se fechar em si só, era uma coisa com que eu sonhava desde que me apaixonara pelas HQs do Tio Patinhas feitas por Carl Barks na Walt Disney’s Comics and Stories. Barks contava suas histórias com tanta energia e com uma plausibilidade tão envolvente que eu queria juntar todas as edições que ele fizera do Tio Patinhas, lê-las de cabo a rabo e descobrir a narrativa mestra que meu cérebro de nove anos tinha certeza de que existia. Quando a realidade se fez presente e não consegui achar um quadrinho épico de fato, com consequências críveis para os heróis, as primeiras sementes de Bone foram plantadas.

Eu me lembro de que, conforme o ato final de Bone se aproximava, comecei a contar para todo mundo que aquilo era uma história só e que o final estava próximo. Mas foi só quando Vijaya e eu chegamos à Comic Con International de San Diego em 2004, com as 1344 páginas de Bone numa brochura gigante, que a comunidade dos quadrinhos entendeu que era uma história completa, com início, meio e fim.

Ao longo de todo esse tempo, nunca me cansei de desenhar Bone. Na verdade, foi o contrário. Entrar no mundo de Bone era quase uma experiência zen: o mundo real sumia e eu voltava dali sempre renovado. Os personagens às vezes pareciam vivos, obrigando a história a sair da rota e penetrar em território inédito. Uma das alegrias de criar uma obra seriada foi a retribuição dos leitores. Por exemplo: quando Phoney e Smiley começaram a trabalhar no golpe da corrida das vacas, foi o entusiasmo dos leitores que fez a trama ganhar destaque, criando uma das grandes sequências da revista – e que nem aparecia nos meus primeiros rascunhos!

Pouco depois de o quadrinho acabar, a Scholastic Books entrou em contato conosco. Fazia anos que eles vinham ouvindo falar de Bone através de bibliotecários e pais, os quais diziam que as crianças queriam sempre mais. A Scholastic propôs que nossos quadrinhos lançassem uma nova linha de graphic novels chamada Graphix. O plano deles era republicar todas as coletâneas a cores, as quais deveriam car na mesma prateleira dos livros infantis, e que eu fizesse uma turnê nacional.
 A ideia de republicar os livros com cores foi de Art Spiegelman. Art e sua esposa, Françoise Mouly, a diretora de arte da New Yorker, vinham conversando com a Scholastic sobre uma linha de graphic novels para crianças e, enquanto aquilo não saía, Art conseguiu me convencer de que eu devia colorir Bone. No início, resisti. A ironia, do meu ponto de vista, era que a influente graphic novel de Art, Maus, vencedora do prêmio Pulitzer e enorme inspiração para Bone, era em preto e branco. Se Maus é em preto e branco, perguntei a ele, por que Bone deveria ser colorida? A resposta de Art foi:

Maus trata da guerra e do holocausto, tinha que ser em preto e branco. Mas Bone trata da vida, e não estará terminada até sair colorida”.

Naqueles primeiros tempos em que Vijaya e eu publicávamos Bone por conta própria, íamos a qualquer convenção de quadrinhos onde se pudesse chegar de carro ou avião. Mais tarde fomos convidados a eventos na Europa, às vezes até dois por ano. Que prazer visitar um país e seu anfitrião levá-lo para jantar! Experimentamos a cultura e as cozinhas do mundo de modo privilegiado, e só temos a agradecer aos quadrinhos. Hoje ainda nos encontramos com muitos amigos além-mar e mantemos o contato. Conforme o tempo passou, pude conhecer muitos leitores e fãs de vários países, e sobretudo pelos Estados Unidos afora, pois todo ano eles vinham em busca de autógrafos para seus livros. Tenho uma dívida de gratidão imensa com os leitores, pela fidelidade e paciência na longa espera para saber como a história chegava ao fim. Uma espera tão longa, aliás, que eles se casaram e formaram famílias.

Agora, são os filhos deles os principais leitores desse continho de fadas tão improvável. Parece que a cada dia eles aumentam em quantidade. Que Deus os abençoe.

Embora eu tenha terminado essa história há seis anos, entre colorir e divulgar os livros nas edições tão amadas da Scholastic, entre reformatá-la e ampliá-la com novos livros de Bone e publicar Bone: One Volume Edition em preto e branco pela Cartoon Books, estou ocupado como nunca no papel de “O Cara do Bone”.

Por isso, obrigado por duas décadas de diversão. Nem posso imaginar o que os próximos vinte anos vão nos trazer.


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