Ronan Farrow comenta desdobramentos do julgamento de Harvey Weinstein em entrevista à revista New Yorker; leia um trecho

Por Equipe Todavia

O ex-produtor de cinema Harvey Weinstein está sendo julgado pela Suprema Corte do Estado de Manhattan por estupro em primeiro grau, estupro em terceiro grau, ato sexual criminoso em primeiro grau e agressão sexual predatória. O primeiro dia do julgamento começou com Weinstein entrando no tribunal, em Manhattan, com o auxílio de um andador e terminou com promotores de Los Angeles anunciando que ele também estava sendo acusado de estuprar uma mulher e abusar sexualmente de outra em 2013.

O jornalista e vencedor do Prêmio Pulitzer Ronan Farrow, autor do best-seller OPERAÇÃO ABAFA, publicado no Brasil pela todavia, reportou o caso extensivamente para a revista New Yorker. Na semana passada, ele conversou com o editor da publicação, David Remnick, e comentou o caso. Leia um trecho abaixo.

  

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Ronan, considerando o número de mulheres que se manifestaram contra Harvey Weinstein, descrevendo episódios de assédio sexual, abuso e estupro, por que o caso em Nova York é tão restrito [no número de acusações] quanto é? 

Tirando a poeira do meu diploma de advogado: você percebe que há muitas razões óbvias para esse número limitado de acusações em qualquer julgamento de crimes sexuais. Existe a jurisdição, é claro – Nova York só vai julgar a conduta criminal que aconteceu dentro do Estado. Outro grande impedimento é a prescrição dos crimes. Em Nova York, as prescrições ao estupro só foram eliminadas em 2006, então, os promotores analisaram exclusivamente as queixas que ocorreram após essa data ou que não foram prestadas naquele momento. E então, desse escopo limitado, eles vão analisar quais acusações têm mais chances de vencer. Quão forte será uma testemunha? Eles têm alguma evidência convincente? Quão consistente tem sido a contabilização das alegações ao longo dos anos? E assim por diante.

 

Weinstein pode pegar 25 anos de prisão – ou mesmo a prisão perpétua. Ele é acusado de forçar uma mulher chamada Mimi Haleyi a deixá-lo fazer sexo oral nela, em 2006. Ele também é acusado de estuprar uma mulher em um hotel, em 2013. Nos documentos do julgamento, essa mulher não tem nome, por razões que espero que você nos explique.

É muito incomum alguém permanecer anônimo até agora em um caso como esse. Não imagino que o juiz tenha falado se isso vai se manter ou não – se ele vai permitir que ela use um pseudônimo ou um primeiro nome, como acontece às vezes com crianças que são vítimas de algo, por exemplo. Creio que eles a manterão anônima por enquanto, não apenas devido à sensibilidade geral das acusações de agressão sexual, mas também devido à natureza pública deste julgamento em particular. No passado, e já nesse caso, Weinstein criou o hábito de usar a imprensa para depreciar suas acusadoras, e imagino que os advogados desta desejem poupá-la o máximo possível. Creio que a equipe [de defesa] de Weinstein esteja ciente de sua identidade. Eles precisam, para poder montar uma defesa justa. Às vezes, isso também acontece em nossas reportagens, quando alguém quer ser anônimo publicamente, mas concorda em ser identificado como a fonte em âmbito judicial.

 

Quão forte é o caso da Promotoria? Que tipo de estratégia de defesa Weinstein e seus advogados têm?

Weinstein possui uma visualização bastante extensa de sua estratégia. Sua equipe jurídica distribuiu um PowerPoint de 57 páginas, que [a jornalista] Irin Carmon publicou na revista New York. Ele vai trabalhar para desacreditar a acusação, tanto no banco dos réus quanto na imprensa, e vai argumentar que eles estão fabricando ou remodelando situações para ganho pessoal ou exposição pública. Na semana passada [início de janeiro], a promotoria encaminhou um pedido para que o juiz emitisse uma ordem de sigilo contra os advogados de Weinstein, para impedi-los de avançar com tais acusações na imprensa. O juiz negou o pedido, mas criticou os advogados de Weinstein por depreciar as testemunhas publicamente. Isso pareceu ser uma resposta ao comentário de uma advogada de Weinstein, Donna Rotunno, sobre Annabella Sciorra, dizendo que ela trabalhou toda sua carreira como atriz, quando sugeriu que ela atuaria durante o julgamento.

 

Quais são os riscos para a acusação? Onde a Promotoria fica vulnerável? 

Como costuma acontecer em casos como esse, haverá pouca evidência forense, se houver alguma. Esses são crimes em que as vítimas relutam em fazer a denúncia, com frequência você tem de lidar com testemunhas que não fizeram suas acusações imediatamente e talvez tenham apenas contado parte delas para pessoas próximas. Weinstein vai apresentar evidências de que houve contato contínuo e amigável com suas acusadoras após suas supostas agressões. Esse é um lado bastante comum da agressão sexual, especialmente quando alguém ocupa uma posição profissional como a de Weinstein, onde as mulheres em questão tiveram de lidar com ele depois, para continuar a buscar seus meios de subsistência. Mas algumas pessoas do júri podem simpatizar com seus argumentos. Ele também vai sugerir ou argumentar abertamente que essas mulheres estão fazendo isso para ganho pessoal, embora eu ache que isso será um desafio, dadas as inúmeras maneiras pelas quais esse tipo de exposição traz estigma e dor. Os promotores terão de ter cuidado ao utilizar argumentos que sugiram contato entre as testemunhas ou uma ação coordenada entre elas, o que é possível acontecer quando você considera que  sobreviventes de agressões sexuais costumam se unir e apoiar umas às outras. Os advogados de Weinstein tentaram induzir perguntas sobre a justeza com que a polícia de Nova York lidou com o caso, embora seja provável que o juiz não permita que o detetive que eles estão tentando desacreditar seja convocado para depor.

 

Sei que você não é defensor nem adivinho, mas o que acha que vai acontecer?

Advogados especialistas em casos de crimes sexuais em Nova York me disseram que acham que a acusação tem vantagens significativas. Obviamente, um dos objetivos da seleção do júri foi erradicar qualquer pessoa com preconceitos sobre Weinstein. Vimos vários jurados enviados para casa porque disseram que leram meu livro -- idealmente, você não quer que um jurado em um caso como esse esteja familiarizado com qualquer relatório prévio, por mais justo que seja. Mas será bastante irreal encontrar alguém com zero exposição às acusações que pesam contra Harvey Weinstein. Portanto você talvez termine com um júri que é mais receptivo à acusação com a sentença máxima – a de agressão sexual predatória, que depende da comprovação de o comportamento dele fazer parte de um padrão.

 

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David Remnick é editor da New Yorker desde 1998. É autor de “The Bridge: The Life And Rise of Barack Obama” (2011)

 

Fonte: https://www.newyorker.com/news/q-and-a/ronan-farrow-on-what-the-harvey-weinstein-trial-could-mean-for-the-metoo-movement

 


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