OUTRAS MENTES, por Daniel Galera

Por Daniel Galera

O escritor fala sobre o livro de Peter Godfrey-Smith

Anedotas sobre a inteligência do polvo
 vêm se tornando parte do senso comum à medida que pesquisas desvendam melhor seu comportamento e seu sistema nervoso. Mas os observadores dedicados desses animais também costumam mencionar algo a mais: uma sensação de interesse mútuo, de estar na presença de uma forma de consciência tão avançada quanto estranha. Foi o que senti, anos atrás, vendo um polvo gigante do Pacífico em um aquário no Japão.

Neste livro adorável e instigante, o filósofo e mergulhador Peter Godfrey-Smith se baseia em seu longo histórico de interações com cefalópodes para delinear uma teoria da origem da consciência. Em sua visão transformativa e gradual da evolução da mente, a experiência interior teria surgido antes de sofisticações cognitivas como a memória, em organismos primitivos que precisavam coordenar os processos internos e os estímulos externos relevantes para as suas ações de sobrevivência.

Os cefalópodes se tornam um estudo de caso especial porque são, nas palavras do autor, um “experimento independente na evolução
 dos cérebros grandes e comportamentos complexos”. A bifurcação na árvore da vida
 que os separou do ramo que inclui pássaros
 e mamíferos ocorreu há 600 milhões de anos. Os polvos desenvolveram sua inteligência 
por um caminho muito diferente do nosso. Eles são a coisa mais parecida com um alienígena inteligente que encontraremos vivendo aqui mesmo, na Terra.

Mas o polvo não é a única estrela do livro. Ele contracena com o choco gigante australiano, uma criatura delirante para a qual todo esforço de descrição parece insuficiente (“espaçonave chorando lágrimas de sangue”, arrisca o autor a certa altura). Com seus tentáculos performáticos, paleta de camuflagens digna de Matisse e interações idiossincráticas com seres humanos, o choco expandirá a noção do leitor a respeito do
 que um organismo inteligente pode ser.

Estamos falando, no fim das contas, de curiosidade mútua. É este, creio, o grande tema do livro. Os avanços da ciência e do conhecimento ecológico nos forçam a rever as dicotomias que nos separam das demais espécies. Este é um mundo de “espécies emaranhadas”, nas palavras da pensadora Donna Haraway. Em tal mundo, não há lugar para o excepcionalismo humano. Além de fornecer insights sobre a evolução das mentes, os cefalópodes e o autor nos convidam a admirar de coração aberto as experiências das demais formas de vida.

 

Daniel Galera é tradutor e escritor. É autor de Dentes guardados (2001),  Até o dia em que o cão morreu (2003), Mãos de Cavalo (2006), Cordilheira (2008), Cachalote (2010), com o desenhista Rafael Coutinho, Barba ensopada de sangue (2012), Meia-noite e vinte (2016). Seus livros e contos foram adaptados para cinema, teatro e histórias em quadrinhos. Atualmente, escreve a newsletter "dentes guardados", onde reúne notas pessoais, comentários sobre livros, cinema e videogames, contos inéditos, bastidores de obras em progresso. Para assinar, clique aqui: https://tinyletter.com/danielgalera

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