O sobrinho de Bioy*

Por Pedro Mairal

Leia trecho do posfácio do autor Pedro Mairal para o livro UMA NOITE COM SABRINA LOVE, já nas livrarias

 

É uma noite de dezembro de 1997. Estou assistindo a um programa meio erótico na tevê a cabo, no qual a apresentadora sorteia uma viagem ao Caribe para duas pessoas. Uma ruiva linda. De repente, paira em minha cabeça a ideia de que a viagem poderia ser com a ruiva, mas não é assim. O que aconteceria se sorteassem uma viagem com ela, quantos concorrentes haveria? Ou melhor: e se o sorteio fosse para passar uma noite com ela? Mas para que isso fosse possível, a apresentadora deveria ter um perfil mais de porn star. Nos Estados Unidos, algumas atrizes pornô têm seu próprio programa na tevê a cabo. E se fosse uma estrela pornô argentina? E se o ganhador do sorteio fosse um adolescente virgem, que mora longe, no interior, e que não tem um centavo? Desligo a televisão e, antes de dormir, anoto em meu caderno de ideias: adolescente ganha em sorteio uma noite com estrela pornô. 

Nas férias me emprestaram um chalé em um clube de campo. As quadras de futebol vazias, a piscina olímpica deserta, o salva-vidas sob o guarda-sol cuidando de ninguém, tudo isso me deprime. Me fecho para escrever minha história. Dou de presente para minha namorada um romance de mil páginas, para assim ter tempo e silêncio. Ela quer casar, eu digo que não temos dinheiro. Escrevo sentado na beira da cama com o laptop em uma cadeira. Postura ruim. Avanço. Acho que é um conto longo, mas lá pela metade começo a desconfiar de que é um romance curto. Nunca escrevi nada tão extenso; tenho alguns contos inéditos e um livro de poemas, textos breves. Isto parece outra coisa, mas não me detenho, deixo que a história me conduza. Meu personagem, adolescente e virgem, sai de sua cidadezinha inundada para pedir carona na estrada até Buenos Aires. Já estamos em movimento e é preciso ver o que o caminho nos traz. Não há como voltar. Lá no horizonte, nos espera, na cama, a grande estrela pornô Sabrina Love. 

Quando o verão acaba, ponho para circular o manuscrito lacrado entre meus amigos da oficina literária. Eles o levam para Córdoba na Semana Santa e me devolvem com anotações e rasuras. Guardo-o desse jeito em uma gaveta da minha escrivaninha. Me esqueço dele até a metade do ano, quando meu amigo Julián me passa as regras de um concurso. Primeira edição do Prêmio Clarín de Romance, cinquenta mil pesos, jurados: Bioy Casares, Roa Bastos, Cabrera Infante. Não tenho chance, mas leio uma cláusula que diz que a editora se reserva o direito de publicar as obras que, mesmo sem terem sido premiadas, lhes parecer interessantes. Ponho nisso toda a minha esperança. Sento-me para corrigi-lo, releio e depois imprimo as cópias do manuscrito. Levo-as no último dia de inscrição e, na fila, olho para o pátio onde estão empilhados oitocentos romances que concorrem nesse ano, multiplicados pelas três cópias requeridas nas regras: 2400 documentos lacrados em pilhas e torres prestes a desmoronar. Volto de ônibus, olhando o papelzinho que me entregaram com um número, um selo, o título do meu romance e meu pseudônimo: Simón. 

Meses se passam sem novidades. Sigo dando meus cursos de escrita, minhas aulas como professor adjunto de Literatura Inglesa. Minha namorada e eu nos mudamos para um apartamento próximo ao Hospital Rivadavia, em uma área que meu pai chama de “o bairro da penitenciária”, porque ali ficava o Presídio de Las Heras, até que o demoliram nos anos 1960. Escolhemos cortinas, escolhemos colchas, agradecemos pelos móveis emprestados. Em meados de outubro anunciam que os nomes dos dez finalistas sairão no jornal de domingo. Desço cedinho, compro um exemplar na banca da avenida e, já subindo pelo elevador, procuro com pressa entre as páginas. Encontro a lista: ali está. Meu título e meu nome entre outros nove. Terror e alegria. Minha namorada chora e não sabe por quê. Depois de vários dias de nervosismo e especulações insones, os organizadores do prêmio me telefonam para avisar que estou entre os quatro finalistas e que vão passar para me buscar na sexta-feira à tarde para me levar à cerimônia num hotel cinco estrelas. Minha mãe me manda comprar um terno. Obedeço. Olho-me no espelho enquanto provo um paletó azul-escuro com ombreiras; o alfaiate da loja me toma as medidas. Na sexta, chego ao salão do hotel quando ainda estava vazio. Por um radiotransmissor ouço dizerem: Já estou com ele, já chegou. Estarão falando de mim?

Na noite anterior não consegui dormir nem um minuto sequer. Tudo parece meio irreal. Minha imagem de terno e gravata. Os famosos que vão chegando. A grande máquina de multimídia em marcha. Escritores, atores, deputados, músicos. Mercedes Sosa e Roa Bastos — e Bioy Casares. Não encontro ninguém conhecido, não tenho a quem cumprimentar, não me dão informações. Quem serão os outros três finalistas? O salão vai ficando cheio e eu permaneço parado em meio a esse grande coquetel repleto de rostos desconhecidos. Começa a cerimônia. Tudo é transmitido ao vivo no telejornal das oito. Meus amigos assistem em suas casas. Do palco, os apresentadores, Canela e o ator Leonardo Sbaraglia, nomeiam os indicados, falam do prêmio, da cultura, dos jurados, do júri da pré-seleção. Por fim descrevem amplamente o argumento do romance vencedor: um adolescente de Entre Ríos empreende uma viagem para Buenos Aires… O título do romance vencedor é Uma noite com Sabrina Love. Meu Deus. Em seguida dizem meu nome. Ninguém me conhece. E acontece o Big Bang. 

Tenho vinte e oito anos, mas cara de dezoito, e estou me atomizando, me multiplicando em telas de televisores de todo o país com meu terno azul e minha cabeleira escolar e as poucas frases que digo, nervoso; entre elas, agradeço aos meus amigos, que me ajudaram a corrigir o livro. Depois me dão uma estatueta e uma caixa discreta com o cheque (por sorte não existem cheques gigantes). Cinquenta mil pesos que são cinquenta mil dólares. Lá se vai por água abaixo a desculpa para não casar. Roa Bastos me cede sua cadeira, fico entre ele e Bioy, que me diz: Desatei a ler o seu romance e não consegui largá-lo até acabar. O mundo está ao contrário. Quando quero agradecer a ele, alguém me levanta pelo braço e dois políticos, com uma habilidade surpreendente, me abraçam diante de um flash, e quando quero cumprimentar Mercedes Sosa, me arrastam a uma sala contígua, para me entrevistar. Pelo caminho, alguns sorrisos são como um insulto, e a deputada/atriz Irma Roy me diz: “Você é uma criança, que Deus te abençoe”.

 

*Trecho do posfácio de Pedro Mairal para o livro UMA NOITE COM SABRINA LOVE. 

 

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Pedro Mairal nasceu em Buenos Aires em 1970. Seu romance de estreia, UMA NOITE COM SABRINA LOVE, chamou a atenção do público e foi adaptado com sucesso para o cinema. Com A URUGUAIA, cujos direitos foram negociados para quase uma dezena de idiomas, Mairal recebeu o prêmio Tigre Juan de melhor romance em 2017.


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