O sistema fabril e protestos dos trabalhadores

Por Joshua B. Freeman

Leia trecho de MASTODONTES sobre algumas das primeiras organizações coletivas de trabalhadores em defesa de melhores condições de trabalho

 

O DEBATE SOBRE O SISTEMA FABRIL

Apesar de toda a maravilha dos edifícios e das máquinas, foi a inovação social mais ampla — o que veio a ser chamado de “sistema fabril” — que ocupou o centro da discussão, do debate e do conflito na primeira metade do século XIX. Expressão imprecisa, o “sistema fabril” referia-se geralmente a todo o novo modo de produção que acompanhava a fábrica, inclusive a força de trabalho que tinha de ser reunida, as condições de trabalho e de vida desses trabalhadores e o impacto da fábrica sobre a organização econômica e social. 

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Nas primeiras décadas, as fábricas [britânicas] costumavam funcionar dia e noite, com dois turnos de doze ou treze horas (incluindo uma de intervalo para o jantar), seguindo o horário lançado pela Derby Silk Mill. Havia crianças trabalhando nos dois turnos. Como domingo era o único dia de folga, semanas de trabalho de mais de setenta horas eram normais. Para manter as crianças exaustas acordadas e trabalhando, os supervisores e os operários adultos batiam nelas, usando as mãos, cintas e até bastões de madeira (embora haja muito debate sobre quão comum era esse tipo de agressão).

Talvez não seja surpreendente que os primeiros industriais muitas vezes não conseguissem preencher todas as vagas de suas fábricas com trabalhadores dispostos. Então, alguns foram atrás de trabalhadores relutantes. As workhouses — asilos de última instância para órfãos e desamparados — eram percorridas em busca de crianças que os funcionários paroquiais punham como aprendizes dos donos de fábricas, dando-lhes plena autoridade legal sobre elas e tornando um ato criminoso sua fuga. (...) O mesmo poderia acontecer com os trabalhadores que assinavam contratos por tempo determinado se desistissem antes da data de término. Além disso, uma lei de 1823 tornava qualquer trabalhador que deixasse seu emprego sem notificação sujeito a três meses de prisão. Desse modo, o poder do Estado ajudava a reunir e manter a força de trabalho para o novo sistema fabril. 

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No discurso popular e na ideologia dominante hoje, a Revolução Industrial é frequentemente associada à liberdade individual e ao que se chama de livre mercado. Mas nos primeiros anos do sistema fabril podia ser tanto considerada uma nova forma de escravidão quanto uma nova forma de liberdade. 

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Alguns críticos do sistema fabril — e alguns defensores da escravidão — questionaram a própria distinção entre trabalho livre e escravo, tendo em vista as circunstâncias em que os operários viviam. Os trabalhadores britânicos eram "escravos da necessidade", escreveu Samuel Martin em 1773, incapazes de "mitigar sua labuta" ou “aumentar seu salário”. Owen perguntou a respeito dos operários da fábrica: “Eles são, em alguma coisa que não seja aparência, trabalhadores realmente livres? […] Que alternativa têm ou que liberdade existe nesse caso, se não a liberdade de morrer de fome?”. Aqui temos uma crítica que vai ao cerne da disseminação das relações de mercado, parte integrante da Revolução Industrial.

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PROTESTO DOS TRABALHADORES 

Jornalistas, críticos, comitês de investigação do governo, romancistas e até poetas, quase todos das classes média e alta, proferiram uma torrente de palavras sobre o sistema fabril durante a primeira metade do século XIX. Em contraste, temos apenas um pequeno corpo de avaliações dos próprios trabalhadores, a maioria dos quais, se não iletrados, tinha pouca oportunidade ou capacidade de registrar seus pensamentos em formas que recebessem muita atenção ou sobrevivessem ao longo dos anos. Na medida em que podemos reconstruir a atitude dos operários em relação ao sistema fabril, temos de fazê-lo em grande parte olhando para suas ações, não suas palavras.

Há, porém, uma palavra relevante que foi trazida para a língua inglesa pelos trabalhadores: “luddismo”. Hoje, “luddismo” é amplamente usada como slogan dos tecnofóbicos, oponentes do avanço baseado em máquinas, despojada de seu contexto original. A palavra deriva dos bandos de trabalhadores e seus partidários que, em 1811 e 1812, e novamente de 1814 a 1817, atacaram máquinas têxteis, fábricas e donos de fábricas nas Midlands e no norte da Inglaterra, alegando que estavam agindo sob o comando do general (às vezes capitão ou rei) Ned Ludd.

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Mais do que uma expressão de oposição às máquinas ou ao sistema fabril, o luddismo foi uma das muitas formas de protesto contra os sofrimentos experimentados pelos trabalhadores — nas fábricas, competindo com elas e não comprometidos de forma alguma com elas — durante a industrialização atabalhoada da primeira metade do século XIX. Em certa medida, a ação dos trabalhadores assumiu as formas que teve porque outras formas de atividade coletiva estavam bloqueadas. A concentração de operários nas fábricas e nos bairros urbanos criou uma massa crítica para a discussão política e a organização, um contexto no qual “a classe trabalhadora se fez”, na descrição famosa de Thompson. Mas as válvulas de escape para a ação eram limitadas.

A classe trabalhadora foi excluída da participação direta na governança durante a maior parte do século XIX; mulheres e operários estavam impedidos de votar durante as décadas em que a fábrica surgiu como uma instituição social fundamental. Os trabalhadores procuravam obter reparação do Parlamento, propondo leis, recolhendo assinaturas em petições, testemunhando nas audiências de comissões e enviando delegações aos membros do lobby, geralmente com resultados escassos. Nas décadas de 1830 e 1840, as demandas dos cartistas, que lideraram enormes mobilizações populares pelo sufrágio universal masculino e pela democratização do Parlamento, foram ignoradas.

O governo também limitava severamente a capacidade dos trabalhadores de se unir para pressionar os patrões a melhorar salários e condições de trabalho. Em reação ao crescimento no final do século XVIII de protossindicatos (de operários não fabris) e do medo dos governantes britânicos provocado pela Revolução Francesa de qualquer tipo de radicalismo ou ação popular, o Parlamento aprovou uma série de leis contra a organização dos trabalhadores, sendo a mais importante a Lei da Combinação de 1800. Entre 1792 e 1815, o governo construiu 155 quartéis militares em zonas industriais.

Apesar das proibições legais, os trabalhadores criaram organizações abertas ou secretas, realizaram greves e participaram de passeatas e manifestações em massa. Na década de 1810, ocorreram as primeiras greves substanciais de operários fabris, algumas envolvendo milhares de fiandeiros de algodão. Foi dura a reação do governo, que deteve, prendeu e deportou para as colônias os principais ativistas e mandou enforcar alguns que destruíram máquinas. Em 1819, quando cerca de 70 mil manifestantes se reuniram em Manchester para exigir reformas democráticas, uma unidade militar composta por industriais, comerciantes e lojistas da cidade atacou a multidão pacífica, matando onze pessoas e deixando centenas de feridos no que ficou conhecido como Massacre de Peterloo. A reação do governo foi aprovar uma legislação ainda mais repressiva que, entre outras coisas, proibia reuniões com mais de cinquenta pessoas.

A década de 1820 trouxe ainda mais greves, destruição de máquinas e campanhas por reforma, seguidas na década de 1830 por um grande esforço para obter uma legislação que limitasse o horário de trabalho das fábricas. Em 1842, houve uma greve generalizada dos operários fabris e mineiros, chamada de Revolta dos Plugues, porque os grevistas removeram os plugues dos motores a vapor, deixando-os inoperantes. Na década de 1850, sindicatos maiores e mais estáveis (embora ainda predominantemente locais) começaram a se formar entre os trabalhadores têxteis. Alguns deflagraram greves grandes e prolongadas, embora geralmente fracassadas. Mais de meio século depois da construção das primeiras fábricas gigantescas, apesar dos esforços repetidos e eventualmente de grande escala, os operários ainda não tinham qualquer método político ou organizacional eficaz para melhorar sua sorte ou moldar a sociedade em que viviam.

A Inglaterra do final do século XVIII e início do XIX costuma ser retratada como uma sociedade mais livre do que a Europa Continental. Alguns estudiosos, como Landes, sugerem que essa foi uma das razões pelas quais a Revolução Industrial se iniciou ali. Mas para os trabalhadores, especialmente os fabris, a Inglaterra estava longe de ser uma sociedade livre. As fábricas cresceram sob um regime político autocrático, pelo menos no que dizia respeito a eles. Os trabalhadores não tinham direito de votar, de se reunir, de se unir para negociar coletivamente com seus patrões, de deixar o emprego quando quisessem ou de dizer o que pensavam. Nada simboliza melhor o apoio que o Estado dava ao sistema industrial emergente do que o enforcamento de trabalhadores não pelo crime de atacar pessoas, mas objetos inanimados, quebrando máquinas. Exaltado mais tarde como o triunfo de um novo tipo de liberdade, o sistema fabril era alimentado por severas restrições aos direitos daqueles cujo trabalho o tornava possível. Foi preciso — e continuou sendo — o poder repressivo do Estado para permitir que a fábrica gigante criasse raízes em solo intacto.


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