O massacre da Ala Mogno

Leia trecho de GUERRA CONTRA A PAZ, livro de Ronan Farrow sobre o declínio da diplomacia americana

Nomeie um embaixador que seja versado em todas as ciências, que compreenda insinuações, expressões faciais e gestos. [...] O Exército depende do oficial comandante... a paz e seu oposto, a guerra, do embaixador. Pois o embaixador sozinho faz e separa aliados; o embaixador lida com as negociações que dividem, ou não, os reis.

Manusmriti, texto hindu, c. 1000 a.C.

O diplomata não fazia a menor ideia de que sua carreira chegara ao fim. Antes de entrar na zona de segurança da embaixada americana, inseriu seu celular dentro de um dos escaninhos na parede do lado de fora, de acordo com o protocolo. O diplomata observara o protocolo por 35 anos, enquanto muros desabavam e impérios desmoronavam, enquanto o mundo ficava menor e telegramas eram substituídos por teleconferências e a prolixa linguagem diplomática reduzia-se ao aforístico e oficioso fraseado dos e-mails. Perdera algumas ligações e o primeiro e-mail que chegou era conciso. O diretor-geral do Foreign Service tentara contatá-lo. Precisavam conversar imediatamente.

O nome do diplomata era Thomas Countryman, o que parecia inventado, mas não era. Estava sentado em frente a uma mesa emprestada na divisão política, no coração do baixo e espaçoso complexo de edifícios situado no elegante bairro Abdoun, na Jordânia. A embaixada era uma estudada homenagem do empreiteiro americano ao Oriente Médio: pedras cor de areia e um motivo em formato de diamante nas janelas de vidro temperado, onde se lia: “local, mas não muito”. Como muitas embaixadas americanas naquela parte do mundo, era impossível evitar a sensação de que se tratava de uma fortaleza. “Cavaríamos um fosso se pudéssemos”, murmurou para mim, certa vez, um funcionário do Foreign Service ali sediado, enquanto nossa SUV blindada abria caminho por entre as barreiras de aço e concreto da instalação, passando por veículos de transporte blindados cheios de soldados uniformizados.

Era 25 de janeiro de 2017. Countryman era o mais graduado funcionário americano especializado em controle de armas, uma missão que era, quase que literalmente, questão de vida ou morte. Supervisionara o trabalho do Departamento de Estado no frágil acordo nuclear com o Irã, assim como a reação às apocalípticas ameaças do regime da Coreia do Norte. Sua viagem naquele janeiro era como um voo à lua: a última após décadas de negociação sobre desarmamento nuclear no Oriente Médio. Zonas desnuclearizadas tinham sido estabelecidas em todo o mundo, da América Latina a partes da África e da Europa. Ninguém achava que Israel fosse repentinamente desistir de suas ogivas. Mas passos adicionais — como convencer Estados da região a ratificarem tratados já assinados que baniam testes nucleares, quando não as próprias armas — poderiam algum dia ser dados. Mesmo aquilo era “uma aspiração um tanto quixotesca, uma vez que árabes e israelenses tinham pontos de vista radicalmente diferentes”. Tom Countryman tinha uma queda pelo eufemismo.

O trabalho que a missão exigia era clássico, diplomacia no velho estilo, o que significava que seria frustrante e envolveria várias mudanças de fuso horário. Anos de cuidadosa persuasão e mediação deixaram os Estados do Oriente Médio, mais do que nunca, próximos de pelo menos aceitarem a realização de uma conferência. Havia diálogos objetivando futuros diálogos, o que é mais fácil ironizar do que conseguir. Naquela noite, Countryman e suas interfaces russa e britânica iam se reunir com funcionários de Egito, Jordânia, Arábia Saudita e Kuwait com o objetivo de enfatizar a importância da diplomacia voltada à não proliferação. No dia seguinte, ele iria a Roma para um encontro com suas interfaces do mundo inteiro. “Era uma reunião importante”, disse-me mais tarde, “talvez decisiva.” Pontuou aquilo com uma risadinha vazia, o que denunciava menos uma característica burlesca sua do que a característica burlesca da proliferação nuclear no Oriente Médio.

Countryman desembarcara em Amã no dia anterior e fizera check-in no Intercontinental. Depois dirigira-se diretamente para uma reunião com seu par da Liga Árabe, regada a café e cigarros. Tomou café mazboot, curto com açúcar, à moda local. Quanto aos cigarros, preferia Marlboro Light, sempre que possível. (Uma vida de viagens e negociações não o tinha ajudado a abandonar o hábito. “Estou tentando”, disse mais tarde, antes de soltar uma baforada com ar infeliz.)

No dia seguinte, foi jantar com funcionários britânicos e russos. Nem todas as interfaces de Countryman tinham os mesmos anos de experiência e relacionamentos que ele. O pessoal britânico havia mudado várias vezes nos últimos anos. Seu colega russo mandara um representante. Aquilo tornaria as coisas mais difíceis. Em atos de persuasão de alto nível, cada grama de experiência diplomática conta.

Diplomatas desempenham muitas funções essenciais — tirar os americanos de crises, manter a coesão de economias em desenvolvimento, bater o martelo em acordos entre governos. Uma última missão às vezes dá ao trabalho o sabor de um jantar de Ação de Graças com os parentes mais problemáticos, com a diferença que dura a vida inteira e acontece nos lugares mais perigosos do planeta. A arma de um diplomata é a persuasão, exercida em frentes de negociação às margens de cúpulas internacionais, em obscuros bares de hotéis ou enquanto caem bombas em zonas de guerra.

Desde 1982, quando entrara para o Foreign Service, Tom Countryman tinha passado por todas as intempéries da diplomacia. Servira na antiga Iugoslávia e no Cairo durante a operação Tempestade no Deserto. Sobrevivera incólume a viagens pelo Afeganistão e à burocracia das Nações Unidas. Aprendera sérvio e croata ao longo do percurso, assim como árabe, italiano e grego. Seu inglês até trazia um desconcertante sotaque de todos aqueles lugares, ou talvez de nenhum deles. Tom Countryman tinha uma voz monocórdica, sem inflexões, e um jeito estranho com vogais, que o fazia soar como um aplicativo de leitura de textos ou um vilão de James Bond. Um troll da internet, ao criticá-lo como “um desses burocratas sem rosto do Departamento de Estado”, mencionou “uma estranha pronúncia burocrática que deve ter adquirido por não ter encontrado pessoas reais durante toda a carreira”, o que revela outra faceta da profissão de diplomata: eles trabalham nos mesmos lugares que os militares, mas não são recebidos com confetes em desfiles de boas-vindas.

No entanto, aquele troll em particular estava errado: Tom Countryman não era alguém sem rosto. Ele tinha um, e não do tipo que some na multidão. Um homem franzino, de olhar penetrante e perspicaz, muitas vezes trazia o cabelo grisalho aparado curto na frente e longo atrás, caindo gloriosamente sobre seus ternos impecáveis. Era um mullet de diplomata: paz na frente, guerra nas costas. (“Juba irada”, vociferou um veículo conservador. “Esse é o cara.”) Tinha a reputação de dar respostas francas e diretas em pronunciamentos públicos e em audiências no Senado. Em uma obra de ficção, nomeá-lo Countryman seria absurdamente inoportuno.

Aquele dia, na Jordânia, sob as luzes fluorescentes da divisão política, Countryman olhou para o e-mail e enviou em resposta o número do ramal de sua mesa. O diretor-geral do Foreign Service, o embaixador Arnold Chacon, ligou em seguida. “Não tenho boas notícias”, começou Chacon, conforme Countryman se lembraria da conversa. A Casa Branca, disse Chacon, acabara de aceitar a demissão de Countryman, a ser efetivada até o fim da semana. Chacon sentia muito. “Não esperava que isso acontecesse comigo”, relembrou Countryman entre baforadas em seu cigarro eletrônico. “Não fazia a menor ideia.” Mas ali estava ele, sendo descartado poucas horas antes de um crítico confronto com governos estrangeiros.

Quando há uma troca da guarda em Washington, funcionários que têm que ser aprovados pelo Senado apresentam uma breve carta, com uma ou duas frases, oferecendo sua demissão. É uma formalidade, uma tradição. Assume-se, quase universalmente, que funcionários de carreira sem vínculos partidários permanecerão no cargo. É a prática. Funcionários do Foreign Service são o fundamento do governo americano no exterior, uma estrutura imperfeita criada para substituir o incompetente e corrupto sistema de ocupação partidária. Só os funcionários de carreira carregam consigo as décadas de conhecimento institucional requeridas para manter os órgãos nacionais funcionando, e mesmo que todos os governos tenham tido desavenças com a intransigência e a falta de prestação de contas desses “perenes”, não há lembrança de algum governo tê-los demitido em número significativo.

O presidente não tem, tecnicamente falando, poder para demitir funcionários de carreira do Foreign Service, apenas para exonerá-los de suas funções. Mas existe a regra do “cresça ou desapareça”: se alguém não for designado pela presidência para uma missão, depois de certo número de anos em um nível superior — o nível de Countryman —, é melhor se aposentar. Ser dispensado daquele trabalho significava o fim da carreira; restava apenas decidir por quanto tempo gostaria de esticá-la. Ele optou por um fim rápido. Era quarta-feira. Quando a exoneração se efetivasse, na sexta-feira, iria embora.

Decidiram que Countryman participaria da reunião com os árabes naquela noite. “Mas e a reunião de Roma?”, ele perguntou. Era uma das raras oportunidades para que os Estados Unidos pressionassem a favor de sua agenda de não proliferação, com a presença das potências mundiais. “É importante.” Chacon concordou, mas as 48 horas concedidas a Countryman não eram suficientes. Teriam que se contentar com um funcionário menos graduado em seu lugar. “Certo, obrigado por me informar”, disse simplesmente Countryman. “Voltarei para casa.” Para um homem com um mullet, Tom Countryman resistia a dar espetáculo.

Outras pessoas ficaram menos conformadas. Sua esposa, Dubravka, conhecera-o durante sua primeira viagem pela antiga Iugoslávia, e eles mantiveram um romance por trinta anos no Foreign Service. Graduada em pedagogia e pintora talentosa, deixara de lado suas ambições para se mudar com ele a cada poucos anos, pelo mundo inteiro, ajudando no orçamento doméstico com o trabalho de intérprete, ao mesmo tempo que criava dois filhos. Seu pai fora diplomata, portanto ela conhecia os sacrifícios inerentes ao trabalho — mas também compartilhava da expectativa geral pelo respeito aos diplomatas experientes, fosse na sua Iugoslávia nativa ou nos Estados Unidos. Aquilo era diferente. “Não é justo”, disse, quando Countryman ligou, minutos após ter sabido da notícia, “e não é justo comigo.”

Ela estava abismada. O diplomata menos experiente que o substituiria — enviado para navegar em um dos mais traiçoeiros assuntos multilaterais, em uma posição de autoridade limitada — estava abismado. Os italianos estavam abismados. Os árabes, naquela noite, ficaram abismados. Countryman esperou até o fim da sessão, após eles terem desfilado suas queixas (e os árabes tinham muitas), que pretendiam discutir antes de se reunirem com os israelenses. Countryman disse, então, que relataria os resultados da negociação ao seu sucessor, uma vez que aquela era sua última reunião como diplomata. Um por um, os árabes tomaram suas mãos nas deles, expressando palavras de respeito — por ele e por uma tradição compartilhada que agora parecia, repentinamente, encarar um futuro incerto.

Tinham decorrido apenas cinco dias do novo governo Trump, e os boatos e a paranoia dominaram os diplomatas americanos. Durante a campanha, Trump fornecera poucos detalhes sobre diplomacia. “A América em primeiro lugar” tornou-se o mantra da campanha. Ele pretendia “parar de fornecer ajuda externa a países que nos odeiam”, embora, naquela altura, não ficasse claro se estava se referindo a ajuda ao desenvolvimento, assistência militar ou ambas. (“Ninguém pode fazer isso melhor do que eu”, acrescentava, gentilmente.)

Countryman foi um dos muitos funcionários graduados que saíram alarmados das primeiras reuniões com a equipe de transição de Trump. “A transição foi uma piada”, lembrou.

Em todas as outras transições havia pessoas bem informadas sobre assuntos externos, havia pessoas com experiência em governo e havia um esforço sistemático para coletar informações e fornecê-las à nova equipe. Naquele caso, nenhuma dessas coisas foi verdade.

Ele apresentou à equipe de transição informes detalhados sobre os assuntos da não proliferação, marcados como “sensíveis, mas não secretos”, uma vez que poucos da equipe tinham autorizações de segurança. Mas eles mostraram pouco interesse por armas nucleares. O que mostraram, na verdade, foi uma “profunda descrença nos servidores públicos profissionais”, disse Countryman. Não tinham vindo para aprender, ele percebeu com desânimo. Tinham vindo para romper.

E então começaram as demissões. Tipicamente, mesmo embaixadores nomeados por indicação política para postos importantes, sobretudo aqueles sem explícita reputação partidária, permaneciam até que sua substituição fosse confirmada, o que podia levar meses. O governo Trump quebrou essa tradição: logo depois de assumir, o novo governo ordenou que todos os embaixadores nomeados politicamente fossem embora de imediato, mais rápido do que de costume. Façam as malas, caiam na estrada.

Depois disso, a equipe de transição requisitou ao Departamento de Estado que elaborasse uma lista com todos os funcionários que não fossem de carreira, em todo o Departamento. Countryman começou a temer que o próximo alvo seriam as empresas contratadas, com autoridade específica, para trazer especialistas para a diplomacia americana. O Departamento estava cheio deles. Desempenhavam papéis essenciais em escritórios que supervisionavam as áreas mais sensíveis da política externa, inclusive no de Tom Countryman. “Eram os melhores especialistas possíveis em assuntos como Coreia e Paquistão”, lembrou. “No escritório de controle de armas havia um contingente deles que não era facilmente substituível.” Eles eram “necessários”. Os Estados Unidos não podiam se dar ao luxo de perdê-los. Mas “o pressentimento de que iriam se livrar de todos que pudessem era palpável”. Countryman passou as semanas que antecederam aquele dia na Jordânia fazendo um discreto lobby junto à administração do Departamento de Estado, ajudando a construir argumentos contra aquilo que temia ser uma onda de demissões de peritos do Departamento.

Na verdade, ele supôs que a ligação recebida trataria desse assunto. O que era impensável, sem precedentes e aparentemente sem sentido era que, na verdade, o movimento do novo governo se voltava contra funcionários de carreira como ele. Countryman insistiu que, em relação a ele, aquilo não representava um grande drama. Estivera ali por muito tempo. Tinha sua aposentadoria. Mas era uma perturbadora afronta à cultura institucional. Tom Countryman construíra uma ficha de serviços inatacável durante governos republicanos e democratas. Tivera uns poucos momentos contenciosos durante audiências no Senado, que entretanto lhe trouxeram mais respeito do que animosidade. Os senadores “vinham até mim, depois, e diziam: ‘Gostamos muito de sua maneira direta de falar’”, ele se lembrava. Talvez, especulou, o governo estivesse tentando passar a mensagem de que os Estados Unidos não estavam mais interessados no controle de armas. Ou talvez tivessem acessado sua conta particular no Facebook, onde, durante a campanha, postara críticas a Trump para um pequeno círculo de amigos. “Até hoje, não sei por que fui discriminado.”

Na verdade, Tom Countryman não fora discriminado. A Casa Branca, disse-lhe Chacon, estava afastando seis diplomatas de carreira naquele dia. Alguns eram mais compreensíveis do que Countryman. O subsecretário de Estado de gestão, Patrick Kennedy, que servira pelo mundo afora por mais de quarenta anos, envolvera-se tanto com o assunto das contas de e-mail da secretária de Estado quanto com a segurança diplomática, e passara o ano anterior, durante a campanha, arrastado pelo turbilhão da cobertura da imprensa a respeito do servidor de e-mail de Hillary Clinton e da controvérsia em torno de Benghazi. David Malcolm Robinson fora secretário adjunto de Estado para conflitos e operações de estabilização, departamento com um portfólio amorfo que os críticos conservadores diziam equivaler ao mais mortífero dos termos em Washington: “construção nacional”. Mas outros três, secretários adjuntos que trabalharam sob Kennedy e não tinham nenhuma relação, pelo menos até onde se pudesse dizer, com Benghazi, também passaram pelo facão. “Foi mesquinho”, disse Countryman. “Vingativo.”

Era apenas o começo. Poucas semanas depois, no Dia dos Namorados, o telefone de Erin Clancy tocou — seu celular pessoal, com uma capinha azul surrada. Ela havia acabado de aterrissar no aeroporto John Wayne, em Orange County, e estava de pé no sol de fevereiro da Califórnia, vestindo jeans e camiseta, esperando por um carro alugado. “Aguarde na linha”, disse o encarregado dos agendamentos. “Estamos em uma reunião de emergência da equipe.” Tratava-se da equipe do vice-secretário de Estado, para onde Clancy, funcionária de carreira do Foreign Service, fora designada. Sua mesa ficava ao alcance do secretário de Estado, no sétimo andar: logo depois da porta de segurança, onde as placas empenadas do teto e o piso de linóleo terminam e as opulentas salas de recepção com painéis de madeira começam, no lendário corredor de poder conhecido como Ala Mogno. Cargos na Ala Mogno eram nomeações de elite, ocupados pelos melhores dentro do Foreign Service; as Ferraris do Departamento de Estado, e ainda mais confiáveis.

Clancy esperou na linha. Seu parceiro, ex-funcionário do Departamento de Estado, dirigiu-lhe um olhar inquisidor. Ela deu de ombros: Vai saber. Até então, os funcionários demitidos eram os que ocupavam cargos, no mínimo, confirmados pelo Senado. Sua equipe consistia inteiramente em funcionários subalternos, e os mais qualificados e protegidos entre eles. Supunham-se a salvo.

Nas semanas que se passaram depois que Tom Countryman e outros funcionários graduados liberaram suas mesas, o Departamento caiu em um silêncio mortal. Naquela altura, na maioria dos governos anteriores, o gabinete do vice-secretário estaria zunindo de atividade, com o intuito de ajudar o novo secretário de Estado a dar a partida em sua agenda. O novo governo ainda tinha que nomear um vice-secretário de Estado, e levaria meses para fazê-lo. Quando o último vice, Tony Blinken, ocupava o cargo, Clancy e sua equipe chegavam às sete da manhã e trabalhavam de doze a catorze horas por dia. Agora, tinham pouca coisa para fazer e tiravam longas pausas para o café, todos os dias às nove da manhã, enquanto esperavam por ordens que nunca chegavam. “Ninguém nos pedia nada, estávamos completamente isolados, não éramos chamados para reuniões, tínhamos que brigar para conseguir cada reunião na Casa Branca”, ela lembrou. “Os encontros matinais consistiam em: ‘E aí, já soube do boato?’. Isso não era jeito de se formular a política externa dos Estados Unidos.” Por fim, o vice interino, Tom Shannon, disse-lhes que poderiam tirar uma folga. Clancy pegou um avião para fora do Distrito Federal e foi visitar a mãe.

Quando Yuri Kim, chefe de gabinete do vice-secretário e funcionária associada do Foreign Service, entrou na linha, sua voz era solene. “Bom”, começou ela, com um tom que não sugeria, na verdade, nada de bom. “Obrigada a todos pela atenção. Acabamos de descobrir que seremos todos convidados a seguir em frente.” Toda a equipe do vice-secretário estava reunida: cinco na sala dos fundos da Ala Mogno, dois ao telefone. Todos falaram ao mesmo tempo. “Como?”, perguntavam. “Por quê?” Deviam procurar o sindicato, sugeriu um. Deviam procurar a imprensa, propôs outro. “Suas nomeações foram revogadas”, Clancy lembrou de ter ouvido. “Talvez vocês venham a ter outro cargo, talvez não. Está o mais absoluto caos. E veio do nada. Sem nenhuma razão.”

Kim, em geral uma ferrenha defensora de sua equipe, começou a falar mecanicamente. Eles tinham 48 horas. No dia seguinte haveria uma reunião no escritório de recursos humanos para orientá-los quanto aos próximos passos. Deveriam aproveitar o pouco tempo que tinham para se preparar.

Quando a ligação foi encerrada, Clancy virou-se para seu parceiro, estupefata. “Fomos todos demitidos.”

[...]

De várias maneiras, o mundo mudara e deixara para trás diplomatas como Countryman e Clancy. A propensão ao populismo, que desde os primeiros dias dos Estados Unidos se opusera ao internacionalismo e o desvalorizara, crescia em todo o mundo ocidental. A tradicional política externa, fundamentada em atos que iam desde a criação da Otan até a do Banco Mundial, após a Segunda Guerra Mundial, dissolvera-se havia muito tempo em um partidarismo vicioso. A tecnologia fizera do ofício dos diplomatas algo menos significativo e especial. Para a função básica de enviar mensagens para terras estrangeiras, um e-mail era mais eficiente do que qualquer embaixador. O prestígio e o poder do Foreign Service declinavam.

Algo do ceticismo para com a diplomacia norte-americana era merecido. O Departamento de Estado mostrava-se frequentemente lento, pesado e pantanoso. Suas estruturas e seu treinamento estavam desatualizados em face dos modernos desafios à influência americana, desde o terrorismo até o radicalismo islâmico. A Casa Branca ficou de olho em muitos indivíduos quando o assunto “objeções de Estado” foi levantado. Mas para o complexo conjunto de novos desafios — transpor barreiras culturais para um fértil relacionamento com a China, forçar o recuo da Coreia do Norte em suas ameaças de guerra nuclear, conter a busca do Irã moderno pela hegemonia regional —, peritos especializados e treinados na arte das negociações duras continuavam sendo indispensáveis. Tecnologia evoluída e endurecimento militar não bastavam para substituí-los. Nesses tipos de crise, marginalizar a diplomacia não é uma inevitabilidade das mudanças globais: é uma opção, feita, vezes sem conta, por governos democratas ou republicanos.

“Sem precedentes”, trombeteou a Foreign Policy e um grande número de outras publicações, sobre aquilo que estava sendo descrito como um “ataque” ou “guerra” do governo Trump contra o Departamento de Estado. No entanto, por mais chocante que fosse o desenrolar dos acontecimentos, tachá-los de inéditos simplesmente não era verdade. O governo Trump levou ao extremo uma tendência que, na realidade, ganhara força desde 11 de setembro de 2001. De Mogadíscio a Damasco e Islamabad, os Estados Unidos deixaram de lado o diálogo civil, substituindo os instrumentos diplomáticos por acordos táticos entre suas Forças Armadas e forças estrangeiras. A Casa Branca encheu-se de generais. Os últimos diplomatas, guardiões de uma profissão em ocaso, que salvara vidas americanas e criara as estruturas estabilizadoras do mundo, frequentemente nem eram admitidos na sala. No mundo todo, cada vez mais oficiais uniformizados lidavam com as negociações, reconstruções econômicas e desenvolvimento de infraestruturas, para os quais tivemos outrora um corpo devotado de especialistas treinados. Como resultado, um conjunto diferente de relações tornou-se o fundamento da política externa americana. Se os civis não têm poder para conduzir negociações, acordos entre militares ainda florescem. A América mudou as pessoas que leva à mesa e, por extensão, mudou quem se senta do outro lado. Ministros de Relações Exteriores ainda estão lá. Mas militares estrangeiros e milícias frequentemente ocupam os melhores assentos.

Essas relações não são novas, tampouco inerentemente negativas. “Os militares norte-americanos são, quando usados judiciosamente e com precisão estratégica, um criterioso instrumento da diplomacia”, disse James Baker, secretário de Estado de George H. W. Bush, incorporando a tendência mais belicosa da política externa. “Eu sempre disse que a diplomacia funciona melhor quando enviada junto com um punho.” A questão é o equilíbrio. Em muitos conflitos por todo o mundo, essas alianças militares eclipsaram o tipo de diplomacia civil que outrora servira para contrabalançá-las, com resultados desastrosos.

[...]

Todos os ex-secretários de Estado ainda vivos registraram depoimentos para este livro. Muitos expressaram preocupação com o futuro do Foreign Service. “Os Estados Unidos devem conduzir uma diplomacia global”, disse George P. Shultz, que tinha 97 anos quando conversamos, durante o governo Trump. O Departamento de Estado, argumentou, fora esticado até seu limite e ficara vulnerável aos caprichos dos sucessivos governos. “Foi irônico. Assim que encontramos o eixo para a Ásia, o Oriente Médio explodiu e a Rússia invadiu a Ucrânia... Portanto, é necessário conduzir uma diplomacia global. Isso significa que devemos ter um Foreign Service forte e pessoas que permaneçam nele.”

Henry Kissinger sugeriu que o arco da história tinha emaciado o Foreign Service, inclinando a balança para o lado da liderança militar. “O problema surge quando a escolha dos conselheiros-chave pende demais em uma direção”, meditou Kissinger.

Bem, existem muitas razões para isso. Primeiro, há menos funcionários experientes no Foreign Service. Segundo, pode-se argumentar que, se alguém dá uma ordem ao Departamento de Defesa, há 80% de chance de que seja executada, e se alguém dá uma ordem ao Departamento de Estado, há 80% de chance de haver uma discussão.

Essas diferenças pragmáticas se radicalizam, inevitavelmente, durante períodos de guerra. “Quando o país está em guerra, a coisa se desloca para a Casa Branca e para o Pentágono”, disse-me Condoleezza Rice. “E penso que isso é natural.” Rice espelhava um pensamento comum a todos os governos: “É um conjunto dinâmico de circunstâncias”, argumentou. “Não há de fato tempo para processos burocráticos... não tem a mesma característica de desenvolvimento dos processos estáveis que você encontra na maioria das vezes.”

No entanto, quando o governo Trump começou com os cortes no Departamento de Estado, haviam se passado quase vinte anos desde os “tempos normais” da política externa norte-americana. Aquela era a nova realidade que os Estados Unidos tinham que enfrentar. O argumento de Rice — de que as burocracias envelhecidas, moldadas durante o pós-guerra, evoluíram devagar demais para tempos emergenciais — era muitas vezes verdadeiro. Mas a centralização impiedosa de poder para evitar as burocracias falidas, em vez de reformá-las para que realizassem seu trabalho conforme desejado, criava um círculo vicioso. Com o Departamento de Estado cada vez menos útil em um mundo de perpétua urgência; com o dinheiro, poder e prestígio do Pentágono apequenando os de outros órgãos; e com a Casa Branca repleta de antigos generais, os Estados Unidos estavam abandonando a possibilidade de que soluções diplomáticas ao menos entrassem na pauta.

[...]

O que importa não é se as velhas instituições da diplomacia tradicional podem ou não resolver as crises atuais. O que importa é que estamos testemunhando a destruição dessas instituições, sem pensar em como construir substitutos mais modernos. Antigos secretários de Estado divergiram sobre como resolver o problema da erosão da esfera diplomática. Kissinger, o eterno falcão, reconheceu o declínio do Departamento de Estado, mas o saudou, dando de ombros. “Fico certamente desconfortável com o fato de hoje andar pelo Departamento de Estado e encontrar tantas salas vazias”, disse. Kissinger tinha 94 anos quando conversamos. Acomodou-se em um sofá azul-royal em seu escritório em Nova York, fitando-me com a testa franzida de preocupação. Aparentava olhar para os problemas atuais de uma distância imensa. Até mesmo sua voz, um profundo rascar bávaro, parecia ecoar através de décadas, como se gravada no Salão Oval de Nixon. “É verdade que o Departamento de Estado está inadequadamente provido de recursos humanos. É verdade que o Departamento de Estado não recebeu o que lhe era devido. Mas isso se deve, em parte, ao fato de que novas instituições surgiram.” Na época em que entrevistei Kissinger, durante o governo Trump, não havia novas instituições surgindo para assumir o tipo de análise da política externa, holística, ponderada, livre de exigências militares que a diplomacia provia, em outras épocas, para os norte-americanos.

Hillary Clinton, que parecia abatida cerca de um ano após a derrota na campanha presidencial de 2016, disse-me não esperar por mudanças nos anos vindouros. Quando assumiu o cargo de secretária de Estado, no começo do governo Obama, disse:

comecei chamando líderes que havia conhecido em minha vida prévia como senadora e primeira-dama, e muitos deles estavam angustiados com o que enxergavam como uma militarização da política externa no governo Bush e uma visão estreita sobre aspectos importantes do terrorismo e, é claro, as guerras do Iraque e do Afeganistão. Acho que agora o equilíbrio pende ainda mais para a militarização da direção, em todos os assuntos.

“A diplomacia”, acrescentou, expressando um sentimento comum a todos os ex-secretários de Estado, tanto republicanos quanto democratas, “está sob a mira das armas.”

Não se trata de uma questão de princípios. As mudanças aqui descritas estão, em tempo real, produzindo resultados que tornam o mundo menos seguro e menos próspero. Já aprofundaram o envolvimento dos Estados Unidos em conflitos militares que poderiam ter sido evitados. Já cobraram um alto custo em vidas norte-americanas e em influência política ao redor do mundo. O que se segue é um relato da crise. Conta a história de uma disciplina salvadora de vidas devastada pela covardia política. Descreve meus anos como funcionário do Departamento de Estado no Afeganistão e em outros lugares, vendo o declínio se desenrolar com resultados desastrosos para os Estados Unidos e para as vidas dos últimos grandes defensores dessa profissão. E lança um olhar para as recentes alianças em todos os cantos da Terra, forjadas por soldados e espiões, analisando o custo de tais relações para os Estados Unidos.

Em resumo, esta é a história da transformação do papel dos Estados Unidos entre as nações do nosso mundo — e de funcionários públicos que se superam dentro de instituições fragilizadas, esforçando-se desesperadamente para manter viva uma alternativa.

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Bate-papo de lançamento com Patricia Campos Mello, jornalista da Folha de S.Paulo, e Guilherme Casarões, professor de Administração Pública, Ciência Política e Relações Internacionais na FGV, professor de literatura alemã da USP, quinta-feira (27), às 19h, na Tapera Taperá, São Paulo. Saiba mais aqui.


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