O dia em que o Nobel premiou uma escritora polonesa feminista

Por Guilherme Ziggy

Ao construir uma trama que conjuga poder, dinheiro, religião e patriarcado, o romance SOBRE OS OSSOS DOS MORTOS, que a todavia lança em 5/11, se inscreve no âmbito das crises política e ambiental que vivemos

  

Premiada nesta semana com o Nobel de Literatura, a romancista polonesa Olga Tokarczuk é, há algum tempo, o nome mais celebrado do cenário literário polonês contemporâneo. Antes do Nobel, seus livros já haviam recebido as principais distinções em seu país e alguns dos mais importantes prêmios para tradução na língua inglesa, como o Man Booker Prize, em 2018. É a esse ano, inclusive, que se refere o Nobel entregue a Olga, em razão de a Academia Sueca ter cancelado a premiação no ano passado após um escândalo sexual – o ganhador do Nobel de Literatura de 2019 foi o austríaco Peter Handke.  

Ao anunciar a polonesa como a ganhadora de 2018, a Academia Sueca a descreveu como alguém com uma imaginação narrativa que, com paixão enciclopédica, representa a passagem de fronteiras como uma forma de vida.” 

A premiação chega como um sopro de representatividade após sucessivos equívocos da academia nos últimos anos. Estrela literária na Polônia há três décadas, a autora possui outros dois romances traduzidos para o inglês, Flights e Primeval and other times. Para o jornal The Guardian, “uma autora feminista de dreadlocks é exatamente do que o Prêmio Nobel precisava”.

“Às vezes eu imagino como teria sido minha vida se meus livros tivessem sido traduzidos para o inglês antes”, disse a autora no início deste ano ao jornal britânico, “porque quando um livro surge em inglês ele se torna universal, transforma-se em uma publicação global”. 

Crítica da atual política repressiva nos países do Leste Europeu, chegou a ser denunciada por uma agência de notícias polonesa como “profundamente anticristã” e responsável por “promover o eco-terrorismo”. Olga Tokarczuk foi também acusada de traição, quando, em uma entrevista, sugeriu que em vez de ser uma grande sobrevivente da opressão, a Polônia era, na realidade, a opressora. Seu editor teve de contratar seguranças particulares para acompanhá-la nos eventos após ameaças de morte.

 

O QUE ELA DISSE SOBRE O NOBEL 

“Tomei conhecimento de que ganhei o Prêmio Nobel na mais incomum das circunstâncias – na estrada, em um lugar “entre lugares”, sem nome. Não consigo pensar em uma metáfora mais adequada para definir o mundo em que vivemos. Hoje, nós escritores nos confrontamos com os desafios mais improváveis, afinal, a literatura é uma arte que se move lentamente – o demorado processo da escrita dificulta ainda mais a tarefa de capturar o mundo “no ato”. 

Sempre me pergunto se ainda é possível descrever o mundo, ou se nós já somos suficientemente desesperançosos frente a uma forma fluída, dissolvida por pontos de vista e valores em extinção. 

Eu acredito em uma literatura que, ao unir as pessoas e nos mostrar o quão similares nós somos, nos torna conscientes do fato de que estamos unidos por temas invisíveis. Que conta a história do mundo como se ele fosse uma coisa viva, unificada, em constante desenvolvimento bem diante dos nossos olhos, em que somos ao mesmo tempo insignificantes e poderosos. 

Meus cumprimentos a Peter Handke pelo seu Prêmio Nobel. Estou muito contente por nós dois termos vindo da mesma parte do mundo.”

 

Declaração oficial de Olga Tokarczuk sobre o Prêmio Nobel. 

 

O QUE DISSERAM SOBRE ELA 

Uma das grandes vozes humanistas da Europa.”

The Guardian

 

“Uma escritora magnífica.” 

Svetlana Alexievich

 

“Um dos livros mais engraçados do ano.”

The Economist

 

A articulista Ruth Franklin, da revista The New Yorker, acredita que Tokarczuk é capaz de “focar sua energia como uma professora de yoga”. Com uma forma escrita fragmentária, adequada para um romance em um país onde as fronteiras nacionais mudaram consideravelmente ao longo das últimas décadas e onde uma variedade de grupos étnicos – poloneses, lituanos, alemães e judeus ­– têm vivido lado a lado em uma cacofonia de línguas e experiências, Tokarczuk aborda temas candentes para a realidade dos seus.

Influenciada pela literatura de poetas como Bruno Schulz e T.S. Eliot, pela psicanálise de Sigmund Freud e o misticismo de William Blake, ela acredita em “questionar mais a realidade e desconfiar de coisas permanentes e estáveis”.

 

QUEM É OLGA TOKARCZUK?
Aos 57 anos, Olga Tokarczuk é uma escritora e ativista vegetariana polonesa. Começou a se interessar pela escrita após a leitura de Além do princípio do prazer, de Sigmund Freud, ainda na adolescência. Graduada em Psicologia pela Universidade de Varsóvia, atuou como terapeuta antes de se dedicar à literatura. Durante esses anos, foi voluntária em um manicômio para adolescentes com problemas comportamentais. Seu primeiro romance foi publicado em 1989. Vive atualmente com seu companheiro, que é tradutor, e seus cachorros, na área rural da Baixa Silésia, região que se transformou em Polônia só depois do fim da Segunda Guerra Mundial.

 

Créditos da imagem: Tomasz Lazar para a revista The New Yorker.


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