Nem uma vírgula a mais, nem uma vírgula a menos

Por Camila von Holdefer

Um texto afiado de Camila von Holdefer sobre a misoginia na crítica cultural

Esta foi minha fala na abertura de um dos debates em comemoração aos 60 anos do caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo. Modifiquei ligeiramente algumas partes para funcionar melhor como post, e, por sugestão, cortei o início, mais dispersivo, em que falava dos desafios da crítica de forma abrangente. Também acrescentei dois parágrafos que achei pertinentes. Um trecho da fala original já havia sido suprimido graças ao conselho de amigos.

 

“Só é possível falar com sua própria voz. E essa voz tem uma tonalidade e uma inflexão que lhes são dadas por toda a experiência que se tem acumulada. Parte dela será, inevitavelmente, referente ao fato de ser uma mulher. Todas nós somos tocadas umas pelas outras e pela história daquelas que nos precederam. Você pode traçar seu próprio caminho, mas sempre fará isso seguindo aqueles abertos por outros, independentemente de gostar ou não deles, de concordar ou discordar deles, desde que tenha a capacidade de transcender esses aspectos.”

— Michelle Dean em Afiadas

 

A prática da crítica cultural atravessa, hoje, um dos momentos mais delicados desde que passou a desempenhar um papel no debate público. Mais do que respostas urgentes, os desafios exigem que as próprias perguntas sejam reformuladas. A crítica de literatura é, talvez, a mais atingida. Os dilemas não são novos, mas se tornaram mais complexos — passando a incluir elementos que até então não existiam ou não eram levados em conta. Boa parte das dificuldades derivam de um cenário maior e mais diverso, que determina tanto a produção quanto a recepção do que é escrito. O número de leitores ainda é pouco expressivo. Travamos nossa batalha em um país cujas maiores livrarias estão à beira da falência, restando as dívidas com as editoras, e os professores, figuras fundamentais no incentivo à leitura, podem ter de encarar a mordaça.

Um debate em que um único participante está amordaçado não é um debate sério.

[...]

Para uma mulher, os desafios não são apenas os que apresentei de forma resumida. Eles vão além. Na crítica cultural, ser mulher é um agravante — mais ou menos como o motivo fútil ou torpe no direito criminal. Mais vale um crítico literário homem, mesmo que semiletrado, do que uma mulher alfabetizada. Qualquer mulher.

Discutimos muito a maneira como as artistas mulheres são vistas, mas nem sempre lembramos das mulheres da crítica cultural. E a verdade é que as coisas são ruins para todas nós.

A dinâmica envolve uma forma sorrateira, quase sempre desonesta, de interpretar o que escrevemos a partir de uma imagem distorcida — a partir de um avatar reduzido, e reduzido justamente porque somos mulheres. As interpretações dos homens são, digamos, bastante livres, uma vez que precisam se encaixar em uma ideia formulada de antemão, cristalizada no imaginário miserável, e no fundo digno de pena, daqueles que não sabem lidar com a presença de mulheres em um debate.

É preciso interpretar as mulheres — de forma desleal, indecente, abjeta — antes que elas interpretem qualquer coisa. A regra da crítica cultural é essa.

Não é silenciamento o que fazem conosco: é muito pior. Nós não temos humanidade suficiente sequer para decidir dizer exatamente o que nós dissemos, nem uma vírgula a mais, nem uma vírgula a menos. Não raro, nosso texto passa, pelo olhar dos homens, a dizer o oposto do que diz. Uma mulher não tem humanidade suficiente sequer para sustentar o que ela acabou de dizer. Foi algo que a traiu, algo que a torna menos racional, ou consciente: ou a imaturidade, ou a falta de conhecimento, ou a inexperiência, ou a ausência de discernimento, ou o caráter duvidoso. Algo impede, sempre, que a mulher seja dona e senhora da própria palavra. Toda mulher que participa do debate cultural é, em alguma medida, vista como uma boneca à espera de um ventríloquo, não importa o que ela possa articular por conta própria. Um homem sempre vai gritar para encobrir o que ela diz, dizendo ele mesmo o que acha conveniente. É mais cruel e insidioso do que sufocar as palavras antes que elas sejam ditas: é esperar que uma mulher as pronuncie para esvaziar essas palavras de uma mulher de peso e valor, ou assegurar que saíram assim por alguma razão incontrolável, já que mulheres não são capazes de controlar coisa alguma, nem a si mesmas. É preciso diminuir as palavras de uma mulher até o ponto em que possam ser desconsideradas. Para uma mulher, é um luxo inimaginável isso de ser contestada ou questionada por aquilo que de fato foi escrito, nem uma vírgula a mais, nem uma vírgula a menos, sem ter as palavras distorcidas para que possam caber em uma imagem fabricadas à nossa revelia.

De resto, como encaixar uma mulher cuja assertividade os homens consideram escandalosa? Eles não têm referências a que recorrer. Precisamos de outras referências, mas nem todos estão empenhados na discussão das antigas e na criação das novas.

Li um ótimo livro chamado Afiadas, da jornalista e crítica Michelle Dean, publicado há poucas semanas pela editora Todavia. Dean elaborou perfis de mulheres com alguma presença na cena do debate intelectual, e um tanto diferentes entre si, de Hannah Arendt a Susan Sontag e Janet Malcolm, passando por Nora Ephron e Mary McCarthy. Todas escreveram quando não havia disposição para ouvir a opinião de mulheres — considerando que ainda não há. Para Dean, essas mulheres “afrontaram abertamente as expectativas relacionadas a gênero” muito antes do surgimento de um movimento feminista organizado.

E aqui está um dos pontos principais que gostaria de discutir hoje. Dean diz que “as pessoas têm problemas com mulheres que não sejam ‘legais’, que não se ajoelhem, que tenham coragem de, às vezes, errar em público”. Errar em público é, para mim, um dos efeitos colaterais inevitáveis de se escrever crítica. Considero que toda crítica é uma discussão pública, que, na medida em que cresce, comporta um conjunto de ideias e valores que se confirmam ou se opõem. Nenhum crítico tem a última palavra. Tanto quanto os artistas cuja obra discute, um crítico está constantemente sob escrutínio. Escrever crítica é estar habituado a isso: a essa tensão e a essa discussão constantes. A crítica é uma grande conversa diversa e coletiva.

Insistir na crítica, continuar a escrever crítica, é acreditar nesse diálogo. E, sobretudo, na inclusão de novas vozes e novas perspectivas nesse diálogo contínuo.

Dean tem razão quando diz que “as pessoas têm problemas com mulheres que não sejam ‘legais’, que não se ajoelhem”. Elas não sabem como encaixá-las.

O que me atrai nos diários de Susan Sontag, para citar um exemplo, é a força de vontade brutal que impulsiona aquela adolescente de quinze anos, e que não desaparece (senão por breves mas decisivos momentos) na mulher adulta. Sontag é um bólido que não aceita ser desviado de um percurso que, no fundo, é sobretudo um percurso interno. Se abro um dos dois volumes e leio uma passagem aleatória, o impacto é sempre o mesmo. Nunca vi a ambição frenética de Sontag senão com admiração, até reverência. É como se cada linha dos diários, mesmo hesitante ou confusa, contribuísse para tornar o gume daquela que escreve um pouco mais cortante.

E o que é cortante pode, é claro, ferir. Não é isso o que se espera de uma mulher. Devemos ser delicadas, quando não submissas, e portanto devemos conter ou suprimir qualquer aspecto que não seja suave. Quando se diz de uma mulher que ela é afiada, quase sempre há um tom de deboche ou censura, como notou Dean no posfácio do livro. Ela também acerta quando diz que o rótulo de afiada tem um tom “vagamente ameaçador”.

As mulheres perfiladas em Afiadas precisavam lidar, segundo Dean, com a “fantasia era de que eram destrutivas, perigosas, voláteis”. Esta é a forma mais básica, mais rasteira, mais cretina, de enxergar uma mulher que ousa participar de um debate onde não é bem-vinda.

Observem: um homem pode ser severo. Uma mulher, não.

Sendo mulher, e levando em conta a maneira nem sempre positiva que as pessoas têm de encarar nossa atividade, enfrentamos o dobro da virulência. Nós já ouvimos coisas que não podem ser ditas neste lugar e neste horário, de homens cultos e civilizados. Nossa moral, nossa sexualidade e nossa aparência são questionadas constantemente. Elas são a razão e o alvo das contestações e dos questionamentos. Muitos homens ligados à crítica aderiram ao movimento que incentiva a leitura de mais escritoras mulheres, esquecendo que é necessário tratar as colegas de profissão de forma mais cordial do que se trataria um saco de lixo.

Quando nos criticam, não nos chamam por nada ou inventam um apelido. Alguns homens criticam nosso trabalho enquanto sutilmente promovem o próprio. Precisam justificar suas escolhas não em si mesmas, mas em oposição às outras, péssimas, dessas mulheres. É a melhor ou a única forma que têm de sustentar o que são e o que fazem. Nós servimos para isso.

Gosto de um pequeno livro de Rebecca Solnit chamado Os homens explicam tudo para mim, no qual ela escreve que a “credibilidade é uma ferramenta básica de sobrevivência”. Retirem a credibilidade de uma mulher, e terão uma concorrente a menos. Isso, claro, considerando que os homens nos vejam como seres conscientes o bastante a ponto de nos considerar suas concorrentes.

E vejam: a velha ideia de críticos como concorrentes não terá vida longa. Ou temos a polifonia e a discussão que passa a englobar a todos, ajudando a criar novos sentidos e novas referências, ou a própria crítica vai cada vez mais escorregar para a irrelevância que sempre ameaça engolir nossa atividade, agora mais do que nunca. Portanto, diante de tantos desafios, é importante discutir se a crítica é de fato relevante a ponto de tentar conservar seu funcionamento a qualquer custo. Minha opinião é que sim, a crítica continua fundamental. Não está aí para vender nada, está aí pelo prazer e pela necessidade da discussão.

É urgente que os homens aceitem as mulheres como interlocutoras legítimas. Disso depende, também, a continuidade daquilo que, gostem eles ou não, nos liga.

Para Rebecca Solnit, são “as ideias preconcebidas que tantas vezes dificultam as coisas para qualquer mulher em qualquer área; que impedem as mulheres de falar, e de serem ouvidas quando ousam falar; que esmagam as mulheres jovens e as reduzem ao silêncio, indicando [...] que esse mundo não pertence a elas.” Solnit termina assim: “É algo que nos deixa bem treinadas em duvidar de nós mesmas e a limitar nossas próprias possibilidades”. Sempre me recusei terminantemente, continuo a me recusar e vou continuar a me recusar, a duvidar de mim mesma além do que o próprio trabalho intelectual exige. Sabemos que as certezas não são boas companheiras na nossa atividade. A única certeza que uma mulher não pode abandonar, qualquer mulher, é a da própria capacidade.

Este é, como tantos outros, um problema estrutural. Todas nós somos submetidas à grosseria, à condescendência, à desvalorização. A misoginia velada. Passar por isso não me concede nenhuma superioridade moral. Continuo enfrentando os mesmos desafios que, em último caso, qualquer crítico enfrenta.

Como disse antes, ser mulher é apenas um agravante. Nos deixa, talvez, mais cansadas. E muito, muito furiosas.

A fúria pode, em certos momentos, ser um ótimo motor.

Não sei qual é a sensação de pertencer a um gênero que não escuta comentários condescendentes a cada meia hora. Se eu pudesse pedir apenas uma coisa, desejaria que me concedessem a suprema gentileza de compreender que escrevi o que quis e porque quis, da maneira que quis.

Nem uma vírgula a mais, nem uma vírgula a menos.

 

Camila von Holdefer é crítica literária e escreve em veículos como Folha de S. Paulo e Blog do IMS.

 

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