(Nem) tudo sobre minha mãe

Por Carolina Vigna Prado

Elvira Vigna, por Carolina Vigna Prado

Este é o primeiro texto que escrevo sobre ela. Não é tarefa fácil falar de alguém tão próximo e muito menos sobre alguém com um domínio tão apurado das palavras. Qualquer coisa que escreva ficará, necessariamente, aquém.

O que tenho a oferecer em pé de igualdade é o afeto. Esse é um legado importante da minha família. Amamos intensamente, integralmente, profundamente. A vida é muito curta para medir ou economizar afeto. Não fazemos nada parcialmente. E nossas decisões estão alinhadas com os nossos desejos. A sinceridade não é no discurso, é na ação.

Minha mãe foi a pessoa mais inteligente, intensa e, ao mesmo tempo, difícil que eu conheci. E isso não é dizer pouco. Ela era difícil porque não fazia concessões à banalidade. Tolerância zero para a mediocridade. Não sei vocês, mas eu faço coisas estúpidas com frequência e encontrava nela uma crítica implacável e incansável.

Esta foi a lição mais importante que minha mãe me deixou: ser sincero, digno e ético, sempre. É o não aceitar nem um cafezinho. É agir de acordo com a dignidade, não com a comodidade. Nem sempre é fácil, mas é sempre claro. Mesmo que pareça impossível, mesmo que seja desnecessário, mesmo que talvez a gente não seja ouvido, mesmo que o mundo nos ignore.

A primeira tatuagem que eu fiz, uma lagartixa nas costas, vem de uma história da minha infância, por causa da expressão “sem rabo preso”. Minha mãe viveu e morreu sem dever nada a ninguém. Espero que alguém possa dizer o mesmo a meu respeito, um dia.

Essa força e essa sinceridade também estão em Kafka. Possuem, ambos, uma lucidez incomum e marcante. A lucidez de quem constrói a partir do vivido e da dor.

Ela tinha um olhar muito humano para todos aqueles que se constroem, que aprendem, que lutam. Lembro, claro, do monólogo da personagem Agrado, em Tudo sobre minha mãe, do Almodóvar. Hoje, 47 anos depois dela me colocar neste mondo cane, eu entendo que “una es más auténtica cuanto más se parece a lo que ha soñado de sí misma”. Essa é a minha tríade sinceridade-dignidade-ética.

Obrigada, mãe.

 

Carolina Vigna Prado é historiadora da arte e escreveu esse texto para Kafkianas.

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