Na corda bamba

Por Wolfram Eilenberger

Em trecho de TEMPO DE MÁGICOS, o jornalista e filósofo Wolfram Eilenberger conta como foi a passagem de Walter Benjamin por Moscou e Paris nos anos 1920

Na corda bamba

“Tive um ataque de nervos (como se costuma dizer); melhor, um depois do outro; no fim das contas, os intervalos quando estive bem tornaram tudo ainda mais difícil”, Benjamin avisa, de Marselha, em 14 de setembro de 1926. Ele havia ido de Paris até lá com o propósito de “quase não pegar a pena nas mãos”. Também naquele outono a situação está tensa: intelectual, social e financeiramente. Nenhum sinal da reivindicada ou ao menos esperada melhoria na sua situação de vida. Ele passou todo o início do ano viajando de Berlim a Paris, para lá e para cá numa “vida elíptica”. Em meados de junho, quase simultaneamente à conclusão do “Livro dos aforismos”, seu pai morreu. A obra, na qual Benjamin trabalhou os dois anos anteriores de modo mais ou menos contínuo, deveria se chamar “Rua bloqueada!”, mas acabou batizada de Rua de mão única. Fazendo um paralelo com sua situação de vida no outono de 1926, “Beco sem saída” teria sido um título igualmente ilustrativo.

De todo modo, a nova obra — uma coleção de sessenta esboços de memórias, em geral com tintas biográficas, arranjados em estilo de revista — apontava, segundo sua avaliação, para o caminho de uma nova forma de escrita e, consequentemente, de pensamento. Ele definiu o verão de 1924, em Capri, como o impulso decisivo para a empreitada, motivo pelo qual o livro traz a seguinte dedicatória:

     Esta rua se chama

     rua Asja Lācis,

     em homenagem a quem,

     como engenheira,

     abriu-a dentro do autor. 

A motivação atribuída a Asja refere-se à atenção voltada agora às coisas da vida cotidiana como pontos de partida primários da reflexão filosófica. A essência da própria época passa a não mais ser investigada por meio de desvios a teorias ou obras de arte clássicas, mas diretamente a partir de objetos e comportamentos contemporâneos. O objetivo é a exposição daqueles “mecanismos [...] com os quais as coisas (e as relações) e as massas interagem mutuamente”.

A primeira entrada — “Posto de gasolina” — de Rua de mão única anuncia explicitamente as consequências dessa nova orientação. Segundo ela, sob dadas circunstâncias sociais,

A atuação literária significativa só pode instituir-se em rigorosa alternância de agir e escrever; tem de cultivar as formas modestas, que correspondem melhor a sua influência em comunidades ativas que o pretensioso gesto universal do livro em folhas voantes, brochuras, artigos de jornal e cartazes. Só essa linguagem de prontidão mostra-se atuante à altura do momento.

E isso na forma de situações captadas que, uma vez passadas para o papel, se assemelham, de acordo com o gênero, a folhetos, textos de brochuras ou slogans de cartazes. Como os quadros criados por Benjamin na sua obra mais recente. Rua de mão única traz no título uma ambivalência que permite reconhecer, em cada uma dessas imagens de pensamento — numa observação mais minuciosa, em cada frase nelas contidas —, uma preciosidade literária que convida a interpretações muito diversas e, num caso ideal, mutuamente excludentes. Rua de mão única soa, por um lado, como uma linha reta e uma direção clara, sem trânsito contrário, mas também desperta a associação com a vida típica daquela geração: uma odisseia fatal sem saídas ou suficientes possibilidades de retorno. O sentimento de vida de uma “geração perdida”, como Gertrude Stein, escritora que vivia em Paris, explica numa conversa com Ernest Hemingway ocorrida na mesma época: perdida, cronicamente indecisa — e exatamente por isso predisposta aos extremos.

Além disso, as imagens do pensamento de Benjamin são contrapontos literários muito conscientes às imagens ambíguas, muito populares na teoria e na psicologia da gestalt da época, que mostram objetos diferentes de acordo com o modo como são olhadas: por exemplo, uma cabeça de pato desenhada a bico de pena, que de um momento para o outro parece ser a cabeça de um coelho; a percepção vai e vem entre os dois conteúdos, indecisa, sem se fixar definitivamente em uma ou outra interpretação. Apenas quem consegue enxergar as duas coisas na imagem está enxergando “certo”. Essa dinâmica de uma “identidade que se mostra somente na transformação paradoxal de uma coisa em outra” parece também a Benjamin como o efeito-chave de seu novo escrever, centrado no objeto. Se não estiver enganado pelo tempo, então essa dinâmica cintilante de uma “alternância livre” entre dois estados mutuamente excludentes corresponde inclusive à paradoxal lei básica da micropartícula da física, fundamento de tudo que existe: o quantum de Max Planck.

O quantum, estudado desde 1923 por um grupo de pesquisadores liderados por Werner Heisenberg, Niels Bohr e Max Born, também não tinha uma identidade fixa observável. Sua natureza de difícil apreensão devia-se ao fato de ele ora ser visto como onda, ora como partícula — mas sob nenhuma circunstância como ambas ao mesmo tempo. A lei da “conversão de uma na outra”, dependendo da posição do observador, era também o movimento fundamental do universo em formação. Além disso, tratava-se de um processo que não seguia leis rigidamente deterministas, mas no máximo estatísticas (Heisenberg e seu grupo acreditou ter provado isso também). Ambivalência e indeterminação incessantes reinavam não somente na base da existência social, mas também na da física.

As imagens do pensamento de Benjamin tentavam oferecer essa falta de nitidez de todas as coisas por meio de uma descrição possivelmente precisa e de profunda penetração nas estruturas internas do mundo das mercadorias que as cercam. Seu direcionamento à coisa concreta cotidiana como ponto de partida da reflexão significa necessariamente um direcionamento filosófico ao materialismo, mas não dialético no sentido de Marx ou de Lênin. Afinal, Benjamin não se interessa em apontar uma mediação previsível das contradições percebidas no objeto. Pelo contrário. O que está em jogo é o entendimento da impossibilidade dessa mediação.

No fim das contas, a verdadeira “coisa” que Benjamin quer revirar e colocar debaixo da lupa literária em 1926 com os quadros micrológicos de Rua de mão única é nada menos que a totalidade do mundo histórico em formação. O charme especial, até o encantamento, por assim dizer, de seu materialismo quiçá “mágico”, está em “penetrar cada vez mais profundamente no interior das coisas” até que “representem um universo por si” — possibilitando por meio dessa concentração uma representação fiel, por assim dizer monadária, do processo histórico total, que se encontra permanentemente na corda bamba entre a salvação momentânea e a danação eterna.

No mergulho investigativo rumo à imanência total do aqui e agora, uma janela na transcendência da salvação haveria de se abrir. Com Benjamin, o imperativo categórico ligado a esse (anti)programa epistemológico é o seguinte:

A tarefa é [...] se decidir, não de uma vez por todas, mas a cada instante. Mas se decidir [...]. Sempre proceder de modo radical com as coisas importantes, sem nunca fazer concessões, seria também minha convicção se um dia eu acabasse ingressando no partido comunista (algo que deixo, por sua vez, na dependência do acaso).

O que não aconteceu mesmo foi a experiência de uma tal decisão. Principalmente em sua vida. Desde abril de 1926 ele foi acometido por severas depressões. Em seu quarto de hotel com vista para o mar Mediterrâneo, depois de encerrado o projeto Rua de mão única e com a perda da figura paterna — sempre central, apesar de tudo —, ele considera concretamente a ideia do suicídio. Ernst Bloch, que de início o havia acompanhado de Paris a Marselha, lembra-se da franqueza com que Benjamin era afeito na época a esta última opção na vida de um ser humano. O suicídio, a derradeira decisão! Justamente algo que o humano não consegue de fato “escolher”, visto que o suicídio — segundo a convicção de Benjamin — pressupõe uma forma de imperiosa autodeterminação, cuja radicalidade se encontra em excluir todo e qualquer outro compromisso racional.

Mas ele não chega às vias de fato. Em vez de encerrar a vida de maneira precoce, Benjamin tranca-se num quarto de hotel por três semanas e lê o romance cômico de Laurence Stern, Tristram Shandy. O tom da obra, permanentemente autoirônico, por vezes quase ridículo, pode ter salvo a vida de Benjamin nos dias finais de setembro de 1926. A literatura serve ao menos para isso.

Seu estado de espírito sombrio, entretanto, permanece inalterado. No início de outubro, ele está de volta a Berlim. Se um velho amigo, preocupado, tivesse lhe oferecido uma “parceria” como arquiteto, Benjamin — criador de Rua de mão única — provavelmente teria embarcado na hora. Mas ele não contava com um amigo desses. E nem com um nome apropriado. Pelo menos, não em Berlim. E muito menos em Paris, onde ele tinha passado os meses anteriores tentando, em vão, entrar nos círculos mais fechados da cena literária francesa.

Até então, nenhuma de suas obras maiores está disponível nas livrarias. Embora as provas tenham sido aprontadas e o contrato assinado há mais de um ano, a Rowohlt posterga tanto as Afinidades eletivas quanto o livro sobre o drama barroco. Rua de mão única também deve ser publicado por essa editora. Mas quando, como e se estão cada vez mais incertos. A única continuidade na vida de Benjamin é a tradução do ciclo de romances de Proust, entretanto — visto que ele considera as intenções artísticas de Proust definitivamente aparentadas às suas — a tarefa faz com que ele sinta crescentes “sinais de um envenenamento interno”.

Estação final, Moscou?

No início de novembro de 1926, ele recebe a notícia de que Asja Lācis, ainda o amor de sua vida, também sofreu um grave colapso nervoso. E que está sendo tratada, em estado crítico, num sanatório em Moscou.

Moscou. Inverno. Sanatório. Exatamente o tipo de circunstância na qual Benjamin imagina uma possível saída de sua crise. O que anima mais um ser humano acometido por ataques de falta de sentido do que se preocupar com outro que está bem pior? Além disso, ele se vê diante de uma decisão existencial, de cuja solução definitiva espera se aproximar com uma permanência naquela cidade. Em Moscou, à época ainda o inquieto laboratório da revolução comunista, ele poderia esquadrinhar com os próprios olhos a situação futura do mundo e de si mesmo.

Seus contatos próximos ou relações na capital soviética são tão minguados quanto os conhecimentos da língua russa. Por essa razão, à exceção de Asja, a única pessoa de confiança será o crítico teatral dr. Bernhard Reich — o companheiro de Asja. Ao longo dos anos, Reich se estabeleceu em Moscou como um dos grandes nomes da cena teatral e, como membro da Associação dos escritores proletários, tornou-se parte do aparelho estatal, algo que Benjamin imagina como uma possível alternativa existencial.

Nos primeiros dias, os dois homens — unidos pela solidariedade — sentam-se todas as tardes ao lado da cama de Asja, e se alternam em trazer bolos ou chá, xales ou sabonetes, revistas ou livros à enferma de humor extremamente volúvel. Por iniciativa de Reich, as horas em comum são passadas com partidas de dominó. Embora desde o começo Benjamin não tenha ficado quase nem um minuto a sós com Asja, ele está contente. Até porque nas horas vagas Reich generosamente o apresenta aos lugares centrais do sistema, aos teatros e às instituições culturais.

Em Moscou, metrópole de milhões de habitantes, Benjamin — muito ligado às impressões visuais — precisa primeiro modificar sua técnica de ver, e não apenas porque as janelas do “trem elétrico sem calefação” estão permanentemente congeladas nas temperaturas de −20°C. Caminhar por “ruas completamente congeladas” e por calçadas estreitas exige tamanha concentração que ele mal consegue erguer a cabeça como um flâneur. Apesar disso, as impressões desde o primeiro dia são tão avassaladoras que ele acredita que só conseguirá fixá-las na forma de um diário: trenós em vez de automóveis, palacetes de verão deteriorados em vez de prédios de vários andares, de estilo e colorido tão diversos e heterogêneos quanto o agitado exército de mascates e pedintes; mongóis com casacos de pele em andrajos, chineses que vendem flores de papel; tártaros mascando fumo em cada esquina, sobre eles cartazes gigantes com lemas revolucionários ou com retratos de Lênin; na margem esquerda do rio Moscou, integrantes do Exército Vermelho exercitam-se entre uma igreja e uma construção, de lá para cá, crianças jogam futebol no meio deles, nos pés nada além de sapatos de feltro rasgados...

A poetização em forma de imagens do pensamento daquilo que foi apreendido teria de esperar. Pois ali, “tudo está em construção ou reforma e quase todo instante levanta questões críticas. As tensões na vida pública — que, em grande parte, têm um caráter próximo ao teológico — são tamanhas que isolam tudo que é privado numa medida inimaginável [...]. E o que resultará da Rússia a seguir é absolutamente imprevisível. Talvez uma verdadeira comunidade socialista, talvez algo bem diferente. A batalha que vai decidir isso está em curso, ininterrupta”.

Quase três anos após a morte de Lênin, é nesse inverno que de maneira exitosa Stálin chega definitivamente ao poder contra Trótski. A experiência socialista dá sua guinada totalitária. No decorrer de apenas uma década milhões de cidadãos soviéticos serão vitimados por ela: devido a reassentamentos, limpezas, exílios arbitrários, torturas, trabalhos forçados em gulags. Um furor que carrega consigo muito sofrimento e que em retrospecto só pode ser compreendido, no melhor dos casos, a partir de categorias teológicas.

O turista Benjamin não sabe de nada disso; à época, Reich tampouco faz ideia, embora tenha revelado ao visitante, numa das primeiras noites que passaram na companhia um do outro, que estava muito preocupado com a “guinada revolucionária do partido, principalmente nas coisas culturais”. Em Moscou de 1926, a possibilidade concreta de uma reviravolta instantânea de um extremo ao outro é um sentimento que domina e ameaça todos os setores e áreas, até as mais altas posições e círculos do partido. Benjamin observa que, em vez de se aproximar de uma determinação e radicalidade emancipadoras, essa constelação vai ao encontro de uma obstrução radical ou nutre um fatalismo temente a Deus: “Que nada jamais aconteça como fora planejado e da maneira esperada — esta formulação banal das complicações da vida resulta aqui tão implacável e intensa em cada caso particular que o fatalismo russo torna-se logo compreensível”.

 

Mas para o momento, olhando com otimismo, ainda está tudo em aberto, tudo é novo, tudo em movimento revolucionário. Já no quarto dia, Benjamin recolheu-se ao seu quarto de hotel — Asja tinha brigado com Reich por uma questão do apartamento —, desesperançadamente exausto: “Estou no meu quarto lendo Proust, ao mesmo tempo devoro marzipã”.

Tudo indica que os problemas de moradia são os verdadeiros definidores da vida em Moscou (segundo a percepção de Benjamin, “a cidade mais cara do mundo”). Algo que ele sentirá na própria pele como hóspede de hotel. A moradora que o dr. Reich é forçado pelo Estado a aceitar em seu apartamento é doente mental, motivo pelo qual o diretor vai passar grande parte das semanas seguintes acampado no quarto de Benjamin. Reich ronca à noite, na cama. Enquanto isso, Benjamin se acomoda numa poltrona arranjada especialmente por Asja. Possivelmente se trata apenas de uma manobra tática. Para o rival Benjamin, essa situação não permite mais pensar em momentos realmente privados com Asja. É justamente nas relações triangulares que o privado se transforma no centro da política do poder.

O inferno dos outros

Os registros de Benjamin, durante as oito semanas de sua estada, se tornam testemunho de uma relação entretecida de maneira tão absurda em sua disposição quanto dolorosa em seu decurso que desperta até hoje efeitos quase corrosivos na alma do leitor. O Diário de Moscou é uma lição permanente das humilhações mútuas que até pessoas de bem estão dispostas a enfrentar em nome de um amor supostamente dividido: Asja briga com Reich, Benjamin com Asja, Reich com Benjamin, Benjamin com Reich, Asja com Benjamin — a paleta de motivos vai de moldes para blusas de sair à noite, passa por torneiras que pingam, falta de dinheiro vivo e hipotético carreirismo até o iminente abandono de Daga, filha de Asja, num orfanato estatal na periferia da cidade. Mas o motivo dos embates mais ferrenhos é o papel do escritor no comunismo, a mais recente encenação de Meyerhold, a arte dramática de Bulgákov, a cena final de Metrópolis ou a questão de quantas vezes o conceito “luta de classes” deveria aparecer na entrada sobre Goethe numa enciclopédia soviética. Há fases em que eles não se falam, sofrem de múltiplos ataques do coração, para na noite seguinte aparecerem, unidos como um trio, na primeira fileira. No teatro, Benjamin também não entende nada, mas é informado da ação por uma tradução simultânea que lhe é sussurrada no ouvido. Em noites especialmente boas, acontece um beijinho. Mas apenas quando Asja está disposta e Reich, que segura a vela, está longe, fazendo outra coisa. Ou seja, quase nunca. “Só se conhece uma região depois de experimentá-la no maior número possível de dimensões. É necessário ter entrado num lugar a partir de cada uma das quatro direções para dominá-lo e, mais ainda, é preciso também sair dele por cada uma delas”, Benjamin anota em 15 de dezembro de 1926, enquanto Reich está sentado bem ao seu lado no quarto de hotel.

Uma observação que também se aplica aos relacionamentos humanos. Em 20 de dezembro, Benjamin torna explícita a analogia entre cidades e seres humanos: “Para mim, Moscou agora é uma fortaleza: o clima cruel, que me afeta muito ainda que faça bem à minha saúde, o desconhecimento da língua, a presença de Reich, o modo de vida bastante limitado de Asja; são tantos os obstáculos que só mesmo a impossibilidade total de avançar mais — a doença de Asja, ou pelo menos sua fraqueza, que nos faz relegar a um segundo plano todos os assuntos pessoais que lhe concernem — é que faz com que tudo isso não me deixe completamente deprimido. Ainda não sei até que ponto atingirei o objetivo secundário de minha viagem, de fugir da melancolia mortal dos dias de Natal”.

Em 30 de dezembro, essa questão também está decidida. Durante uma ida ao teatro com Asja, quando estão os dois diante de um cartaz, ele diz: “Se hoje à noite eu tivesse de ficar sentado sozinho num lugar qualquer, me enforcaria de desalento”.

Homem sem estrutura

Com o começo do novo ano, não apenas a temperatura em Moscou bate outro recorde negativo: Asja sofre novamente de ataques de febre e tem de dividir o quarto no sanatório com outra paciente tão barulhenta quanto absolutamente vulgar. Para o azar ser completo, ela fala alemão e se mete nas conversas, toda animada. Reich continua morando com Benjamin no hotel, passando a usar o lugar também como escritório e local de trabalho. É impossível pensar numa briga. A situação está enrolada demais, os protagonistas por demais desgastados. Em 8 de janeiro, Reich sofre um grave ataque cardíaco; Asja também só faz piorar. Enclausurado de modo cada vez mais defensivo no seu quarto de hotel, Benjamin tem um momento de dolorosa e inequívoca autorreflexão:

Torna-se cada vez mais claro para mim que preciso, no futuro imediato, de um suporte mais sólido para o meu trabalho. Nesse sentido, traduzir está obviamente fora de questão. O pré-requisito para conseguir isso é, mais uma vez, uma tomada de posição. Só fatores exclusivamente externos impedem-me de entrar no Partido Comunista Alemão. Agora seria o momento indicado, e talvez seja perigoso deixá-lo passar. Justamente pelo fato de a filiação ao Partido ser para mim, possivelmente, apenas um episódio, não é aconselhável adiá-la ainda mais. Mas há, e permanecem, os fatores externos, sob a pressão dos quais eu me pergunto se não seria possível, através de trabalho intensivo, consolidar concreta e economicamente uma posição independente na esquerda que continuasse me assegurando a possibilidade de uma produção abrangente dentro de minha atual esfera de trabalho. Mas a questão é, justamente, se essa produção pode ser levada adiante, a uma nova fase, sem que haja uma ruptura. Ainda assim, esse “suporte” precisaria estar apoiado em circunstâncias externas, um cargo de redator, por exemplo. De qualquer maneira, a época que se aproxima parece-me distinguir-se da anterior na medida em que esmorece a influência determinante do elemento erótico. A observação do relacionamento entre Reich e Asja contribuiu, em certa medida, para me fazer consciente disso. Noto que Reich se mantém firme em face dos altos e baixos de Asja, e se deixa influenciar muito pouco por padrões de comportamento que me deixariam doente, ao menos, é o que parece. Ainda que fosse só aparência, já seria muito. Isso se deve ao “suporte” que encontrou aqui para seu trabalho.

A situação de vida de Benjamin no fim dos anos 1920 é condensada numa única passagem. O que para Wittgenstein era o convento, para ele era o partido comunista. Numa franqueza sem reservas, observações a respeito de longos processos de amadurecimento ligam-se a considerações sobre oportunidades banais de um individualista decaído tanto social quanto economicamente. Se não há um motivo derradeiro para tomar decisões, que essas ao menos se revelem úteis dali em diante! Pragmatismo radical torna-se opção, sonhos burgueses de um “cargo de redator” pipocam na consciência. Vale tudo, menos continuar do jeito que está! Aos trinta e tantos anos, Benjamin precisa reconhecer que não tem algo para se apoiar na vida, nem mesmo uma vida em si. Até Asja e Reich estão melhor. Ao menos eles têm um ao outro, mais a missão comunista de Asja e o cotidiano estruturado do apparatchik Reich:

Outra consideração: filiar-se ao Partido? Vantagens decisivas: uma posição sólida, um mandato, ainda que apenas virtual. Contato organizado e garantido com as pessoas. Por outro lado: ser comunista em um Estado onde governa o proletariado significa renunciar completamente à independência individual. Delega-se, por assim dizer, ao Partido a tarefa de organizar a própria vida. [...] Enquanto estiver viajando, contudo, minha filiação ao Partido mal pode ser considerada.

Continuar viajando. Desde sempre, a escolha preferida de Benjamin. Ele não ingressará no partido nem no inverno de 1927 nem mais tarde. No final, sempre vence o desejo por independência, que é condição de uma possível existência de pensamento autônomo. Ele deixa Moscou em 30 de janeiro de 1927. Os últimos minutos com Asja se assemelham a uma imagem emotiva ambígua à la dr. Jivago: “Animosidade e amor alternavam-se dentro de mim com a velocidade de um raio; finalmente despedimo-nos, ela da plataforma do bonde, eu ficando para trás, cogitando se deveria ou não segui-la, saltar para alcançá-la”.

Festa particular

O sentimento de profundo desamparo persegue Benjamin até Paris (ou é ele quem o persegue?), onde ele passa quase toda a primavera em quartos de hotel “miseráveis, minúsculos e malcuidados”, que “mal dispõem de mais que uma cama de ferro” e uma pequena mesa. “Adaptação difícil; problemas; trabalho; demais para terminar, de menos para ganhar algum dinheiro”, ele escreve em 9 de abril de 1927 para Jula Cohn — seu segundo grande amor daqueles anos. Como antes, ele a corteja intensamente.

Paris naqueles anos é a cidade de André Breton, Tristan Tzara e Luis Buñuel, de Jean Giraudoux e Louis Aragon, de James Joyce e Ernest Hemingway, de Gertrude Stein e Picasso, de F. Scott e Zelda Fitzgerald, de John Dos Passos e William Carlos Williams, de Anaïs Nin e Coco Chanel; é o berço do surrealismo, local de nascimento de Ulisses (1922), de O sol também se levanta (1926) e de partes de O grande Gatsby (1925). Paris, o laboratório da vanguarda no qual a criatividade quase transborda. Não apenas o espírito mundial da literatura está em casa em Paris como também faz festa e dança por lá até o amanhecer — pelo menos é o que relatam seus protagonistas. Do Trianon ou do Ritz, eles atravessam Montparnasse. Aos sábados, Gertrude Stein promove seu open house na Rue de Fleurus e explica a todos que querem (ou não querem) ouvir que o gênio da época é ela e não Joyce. Mesmo os poucos que desejam voltar para casa já às duas da manhã se encontram casualmente, no caminho de volta, com tantos amigos e conhecidos que é inevitável estender o programa até a manhã do dia seguinte. Via de regra, sem Benjamin. Duzentos mil americanos, seduzidos pelo franco barato, instalaram-se em Paris em meados dos anos 1920. A maioria é jovem, festeira e com algum tipo de interesse em arte. Longe de casa e com um câmbio ridiculamente favorável nas costas, eles botam para quebrar.

Claro, Benjamin vez ou outra também mergulha em algum “inferninho” da cidade, onde ele — como o moderado bebedor de vinho branco que era e será durante toda a vida — chega até a sacolejar o corpo, conseguindo atrair para si a chacota de seus dois colegas de literatura especialmente versados em questões de bordel, Franz Hessel e Thankmar von Münchhausen. Trata-se de uma exceção. Pois o franco francês não está tão fraco assim a ponto de Benjamin poder se divertir à vontade nesse campo. Mas apesar de suas fraquezas por aventuras eróticas pagas e pelos jogos de azar, Benjamin é o exato oposto de um festeiro viril ou de um dom-juan medianamente exitoso. Quem imagina suas primaveras parisienses de 1926 e 1927 como uma féerie à la Hemingway, transbordando champanhe, salões e aventuras eróticas, errou. Nos dias bons, logo depois de despertar (sem ter se lavado, comido ou bebido qualquer coisa), ele consegue trabalhar por várias horas em sua tradução de Proust ou numa resenha paga para o jornal Frankfurter Zeitung ou para a revista Literarische Welt, para, em seguida, com a cota diária alcançada, passar o resto do dia (de preferência sem maiores gastos) flanando pelas passagens e vielas da cidade, sempre à procura de um novo restaurante chinês escondido com um cardápio barato passável.

Embora seu francês seja fluente e quase sem erros, ele ainda não se sente confiante o suficiente na língua estrangeira para os padrões especialmente altos de sua própria expressão verbal. Quando pede por encontros com literatos nativos, ele os consegue em geral sem maiores problemas — embora nunca se afastando do papel instrumental de jornalista. Como escritor, ele quase não tem vínculos duradouros ou mesmo utilitários. Por fim, em nenhum momento ele parece ter tido qualquer interesse na cena mais que vibrante dos autores britânicos e americanos. Ele não lia em inglês nem falava a língua. Apesar disso, essa lacuna continua sendo estranha e guarda semelhança com uma rejeição agressiva. Possivelmente porque a esposa, Dora, garanta o próprio sustento e o do filho em comum com traduções literárias do inglês. Ela o visita em junho de 1927, juntamente com Stefan. Uma interrupção feliz. Fora isso, Benjamin sente-se deixado na mão com seu talento de maneira igualmente infame pelas duas metrópoles douradas da década, Paris e Berlim (“Berlim é um instrumento maravilhoso, desde que não se dê a mínima para isso”).

“No momento, já estou sozinho e vou ficar catorze dias sentado aqui totalmente solitário”, ele escreve em julho para Scholem. O amigo, vindo de Jerusalém — onde passou a lecionar na Universidade Hebraica de Jerusalém, criada em 1925 —, está a caminho de Paris e Londres em viagem de pesquisa. Fazia quatro anos que não se encontravam, e os amigos querem se rever em agosto de 1927, durante algumas semanas. Benjamin, envergonhado pela situação precária e amedrontado pela “autoconfiança ostentatória” de Scholem, a princípio teme o encontro, que acaba tendo um saldo positivo. Eles se veem geralmente à noite nos cafés ao redor do boulevard Montparnasse,  “no Dome e no Coupole”, os preferidos de Benjamin. Ao longo dos anos, Scholem montou sua estrutura, enquanto Benjamin continua a marcar passo. Nesse meio-tempo ele começou a trabalhar num novo projeto que trata das passagens comerciais e que deve formar uma espécie de complemento às imagens de pensamento de Rua de mão única, via de regra localizadas em Berlim. Scholem se recorda que ele falava “naquela época em terminar esse trabalho nos próximos meses”. O manuscrito de cerca de cinquenta páginas, do qual Benjamin lê trechos em voz alta para o amigo nos cafés, é o embrião da obra Passagens, sua ocupação na década seguinte. Ela continuará sendo um (gigantesco) fragmento.

Benjamin fala de Moscou; Scholem, consciente da precária situação de vida do amigo, fala de Jerusalém, da construção de um novo Estado para o povo judeu e do papel reservado à universidade recém-fundada na consolidação de uma identidade judaica. O fato de Judah Leon Magnes — reitor da Universidade de Jerusalém e fluente em alemão — estar em Paris também é conveniente. Scholem combina um encontro: “Foi assim”, ele se lembra, “que aconteceu uma conversa de duas horas entre nós três, na qual Benjamin — que tinha se preparado bem para ela — apresentou a ele sua situação intelectual numa formulação incrível; precisou seu desejo de se aproximar dos grandes textos da literatura judaica por meio da língua hebraica não como filólogo, mas como metafísico, e se colocou à disposição para ir a Jerusalém, se necessário, de modo temporário ou permanente [...]. Ele queria dedicar seu trabalho produtivo ao judaísmo [...]”.23

Aí está de novo, um momento de virada paradoxal de um extremo ao outro: sempre radical, nunca coerente! Scholem encerra a passagem diplomaticamente: “Eu mesmo fiquei surpreso com a forma determinada e positiva com a qual Benjamin apresentou esses pensamentos, que naturalmente já tinham vindo à tona no passado, dessa ou de outra forma, e dos quais eu havia participado de algum modo”.

Ainda na mesma noite, Benjamin assegura ao chanceler Magnes a ida por um ano a Jerusalém — é claro que com ajuda financeira assegurada —, a fim de se dedicar ao aprendizado do hebraico em tempo integral. O lance mais fantástico da noite provavelmente foi o fato de Magnes ter acreditado em todas as palavras de Walter Benjamin, prometendo fazer a sua parte para que tudo desse certo. Como única condição, ele pede pareceres escritos sobre os trabalhos de Benjamin — de preferência por notórias personalidades. De repente, abre-se para Benjamin uma concreta perspectiva de vida. Se não em Moscou, então em Jerusalém. Afinal, ele já não tinha escrito a Scholem, há menos de um ano, que a decisão definitiva ficaria a cargo do destino?

Também em Berlim as coisas viram de repente para o lado positivo. Os livros, finalmente, serão lançados pela editora Rowohlt em janeiro! Benjamin retorna em novembro a fim de acompanhar presencialmente a publicação. E basta chegar para ficar por três semanas de cama com icterícia. Tempo de ócio suficiente para pensar em possíveis pareceristas da mais alta categoria. Para Jerusalém. Para uma nova vida estruturada!

Hugo von Hofmannsthal, que durante anos foi seu único fiel admirador, é elencado em primeiro lugar. Mas o segundo parecer deve, se possível, vir com a assinatura de Ernst Cassirer. Não é um obstáculo fácil. Em março de 1928, Benjamin mal avançou nesse sentido e imagina, na clássica maneira benjaminiana, haver uma abrangente conspiração em marcha, como relata a Scholem: “A importância do voto de Cassirer já seria evidente para mim, mas você conhece a hostilidade de meu primo William Stern em Hamburgo. E ao redor de Warburg está tudo nublado até agora, ninguém faz ideia ao certo do que pode sair dali. Assim que souber o que Cassirer pensa de mim, informo você”.

O que Cassirer pensa de Benjamin? Boa pergunta.

 

 


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