Moretti e O ROMANCE DE FORMAÇÃO

Por Kelvin Falcão Klein

Peça fundamental nos estudos literários das últimas décadas, esse gênero literário oferece uma inédita aproximação entre “mundo” e “subjetividade”, uma vez que a “formação” do protagonista – experiências, viagens, conquistas e desilusões – tanto espelha quanto contraria seu contexto histórico

 

Quando Franco Moretti chega à Universidade de Salerno, em 1979, está determinado a ler e ensinar o maior número possível de romances. E não apenas isso: quer que seu método seja aquele da literatura comparada, ou seja, quer pensar os romances dentro de seus contextos nacionais e também a partir de suas relações recíprocas de empréstimo, contágio e influência. O corpo de trabalho inicial selecionado por Moretti era composto por O vermelho e o negro, de Stendhal, Ilusões perdidas, de Balzac, e Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, de Goethe. O que os aproxima é a insistência no percurso de um indivíduo (Julien Sorel, Lucien de Rubempré e Wilhelm Meister) e suas complexas estratégias de adaptação diante de um contexto histórico turbulento.

O trabalho que Moretti fazia em sala de aula foi aos poucos se ampliando e, depois de cinco anos de pesquisa e escrita, ele publica O romance de formação – originalmente de 1986, relançado em 1999 e desde então peça fundamental nos estudos literários das últimas décadas. O que é o “romance de formação” ou, como também é conhecido, o Bildungsroman? Em linhas gerais, esse gênero oferece uma inédita aproximação entre “mundo” e “subjetividade”, uma vez que a “formação” do protagonista – suas experiências, suas viagens, suas conquistas e desilusões – tanto espelha quanto contraria seu contexto histórico. Autonomia individual e integração social são as duas faces de um mesmo percurso.

O romance de formação traz um horizonte ambivalente, que seduz na mesma medida em que se afasta. Nas palavras de Moretti, “a prova que o protagonista do Bildungsroman deve superar consiste em aceitar a protelação do sentido último de sua existência”. A “interioridade” do sujeito cuja história é contada, “férvida e viva”, é “não objetiva” e “talvez não objetivável”, ou seja, o processo de formação é virtualmente infinito – o que ajuda a explicar a extensão de um romance como Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, por exemplo.

É possível dizer, forçando um pouco as categorias, que o Bildungsroman reúne certas estratégias narrativas tanto do romance histórico quanto do romance psicológico, já que seu objetivo último é costurar – sempre de forma provisória – o indivíduo e seu contexto. Nessa perspectiva, o romance de formação apresenta um dispositivo quase irresistível de sedução do leitor: temos a ilusão de aprender algo sobre a História – algo sobre Napoleão, sobre a imprensa, sobre as fronteiras geopolíticas no século XVIII – enquanto nos refestelamos com as confissões sentimentais de heróis e heroínas incrivelmente complexos.

Parte do esforço de Moretti em seu livro está em aliar dois momentos receptivos bastante diversos: o período histórico de emergência e circulação inicial do romance de formação e, bem mais distante, o período histórico da nossa contemporaneidade, que busca resgatar, com olhos teóricos e críticos, aquele momento receptivo inicial. Moretti fala de uma “onda ascendente do Bildungsroman”, posicionada entre 1789 e 1848, época de equilíbrio “entre os vínculos da socialização moderna e suas vantagens”. Depois das várias revoluções, do “terremoto da metade do século”, o mecanismo do Bildungsroman (sua peculiar e delicada intuição do contato entre subjetividade e contexto) se enrijece, “torna-se obscuro”. Aí começa o que Moretti chama de “parábola descendente do romance de formação”, levando ao seu encerramento por volta de 1914, com livros como O jovem Törless, de Robert Musil, ou Retrato do artista quando jovem, de James Joyce.

O livro de Moretti é tão instigante e desafiador não porque apresenta uma história da literatura europeia de Goethe a Joyce, e sim porque relê esse período e esses autores a partir de uma questão específica, minuciosamente examinada. Cada romance novo que surge na argumentação transforma a premissa inicial de O romance de formação e deve ser posto em confronto e contraste com aquilo que veio antes e aquilo que virá depois. Stendhal, com O vermelho e o negro (a história do carpinteiro que vai parar na alta sociedade francesa), produz uma transformação do Bildungsroman herdado de Goethe e Balzac, que conclui tipicamente com a história do herói se integrando ao pano de fundo coletivo até ambos tornarem-se um só plano. Stendhal, ao contrário, persegue a separação: “daí o seu modo de ir direto ao ponto”, escreve Moretti, “os lentos processos de aproximação, o gosto pelas sobredeterminações, tão típicos de Goethe e de Balzac, são abandonados em favor de uma rapidez narrativa que conduz diretamente ao núcleo do episódio, conferindo-lhe, em geral, uma aura de grande dia de batalha”.

A partir daí, todo romance nessa tradição se funda como um “grande dia de batalha”: profundamente envolvido na demarcação de um espaço próprio; barulhento, chamativo e ambicioso (pense em Guerra e paz, pense em Ulisses); fazendo ecoar ao longo do tempo e do espaço suas explosões de estilo e suas operações táticas de reivindicação do cânone e dos olhos da crítica.

 

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Kelvin Falcão Klein é crítico literário e professor de Literatura Comparada na Escola de Letras da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e no Programa de Pós-Graduação em História da mesma instituição. Autor de Conversas apócrifas com Enrique Vila-Matas (2011) e Wilcock, ficção e arquivo (2018).


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