CRIME E CASTIGO, por Rubens Figueiredo

Por Rubens Figueiredo

Tradutor destaca particularidades do clássico de Dostoiésvki

Um dos maiores tradutores do russo da atualidade, Rubens Figueiredo ficou a cargo da tradução da nossa edição de Crime e Castigo, lançada em abril deste ano. Mais: preparou um mapa da São Petersburgo de Raskólnikov e uma apresentação crítica da obra, repassando suas circunstâncias históricas, as origens da narrativa e suas transformações, os procedimentos de construção e de estilo de Dostoiésvki. Agora, Figueiredo apresenta sua análise em forma de curso, de 22 a 24 de agosto, no espaço Escrevedeira, em São Paulo.

Leia abaixo trechos da apresentação e saiba mais sobre o curso aqui.

 

Apresentação de Crime e Castigo

por Rubens Figueiredo

Dostoiévski escreveu Crime e castigo entre 1865 e 1866, em São Petersburgo, capital do Império Russo. Tinha 45 anos e era viúvo. O romance foi publicado em partes, ao longo de 1866, na revista mensal Rússki Viéstnik [O Mensageiro Russo], a mesma que vinha publicando, na época, o romance Guerra e paz, de Liev Tolstói. A ideia do livro surgiu em meados de 1865, quando Dostoiévski estava na Alemanha e, premido por dívidas, propôs numa carta a Katkóv, editor da revista, redigir uma novela: “o relato psicológico de um crime”. E explicou:

A ação se passa no tempo atual. Um estudante, expulso da universidade, pequeno-burguês de origem, vive na extrema pobreza e, por leviandade, por perturbação do juízo, acaba se rendendo a certas ideias estranhas e “inacabadas”, que estão no ar, e decide sair, de uma vez por todas, de sua situação sórdida. Resolve matar uma velha que empresta dinheiro a juros

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Os estudiosos apontam duas fontes imediatas para o episódio central do romance. Primeiro, o célebre assassino e poeta francês Pierre François Lacenaire (1803-36), que se dizia inspirado por teorias revolucionárias e democráticas e movido pela ideia da vingança individual contra a sociedade. Dostoiévski chegou a escrever sobre o caso, na imprensa russa. Outra fonte foi um crime ocorrido em São Petersburgo em agosto de 1865, amplamente noticiado: o roubo e o assassinato de duas idosas, cometido com um machado, por um estudante de 27 anos, um raslkólnik, ou seja, um adepto da seita classificada como raskol.

A palavra russa significa “cisma”, pois a seita surgiu de uma dissidência no interior da Igreja Ortodoxa contra as reformas do patriarca Níkon, no século XVII. A óbvia coincidência entre o sobrenome do protagonista de Crime e castigo (Raskólnikov) e a denominação do grupo religioso sugere, por si só, a direção das preocupações de Dostoiévski, que não costumava atribuir nomes aleatórios a seus personagens mais importantes. Desse modo, o autor deixa no ar a imagem de alguém que rompe os laços com sua comunidade.

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Quando Dostoiévski escreveu Crime e castigo, a expansão das relações capitalistas na Rússia tinha ganhado forte impulso graças às reformas do tsar Alexandre II. Entre elas, a mais clamorosa foi a emancipação dos servos, decretada em 1861. Porém, já vinha de muito antes o processo em que formas sociais eram importadas, já prontas, dos países tidos como avançados, e impostas sobre a matriz histórica agrária russa, encarada em bloco como fonte de atraso. O choque profundo causado por tais transformações se expressa nas ricas polêmicas travadas entre os intelectuais russos, e Crime e castigo se insere por inteiro naqueles debates.

Em primeiro plano, o romance explora a urbanização, uma das faces mais visíveis de todo o processo. Nesse aspecto, a cidade de São Petersburgo, fundada e construída por decreto do tsar Pedro, o Grande, nos primeiros anos do século XVIII, vem bem a calhar. A concentração de pessoas em pouco espaço põe em relevo a pobreza, a insalubridade, a criminalidade, a indiferença — condições que, no ambiente rural, podiam se apresentar de forma atenuada, graças à mera dispersão demográfica. Dostoiévski carrega nas tintas ao retratar as condições de moradia da cidade, onde os apartamentos eram alugados e sublocados, divididos e subdivididos, em cômodos cada vez menores. Cubículo, toca, cela, caixote, canto — a lista de palavras que, no romance, designam as habitações fala por si só. O efeito psicológico traumático do ambiente ressalta nas reações e nas palavras dos próprios personagens.

A par disso, ao ar livre, os personagens percorrem ruas, praças, pontes, avenidas, parques, edifícios denominados e localizados com tamanha exatidão que o leitor, se quisesse, poderia seguir seu trajeto em um mapa. No entanto, em vez de arejar ou alargar o horizonte, tais deslocamentos apenas reforçam a mesma sensação opressiva, em que o meio urbano é vivido como uma prisão ou um pesadelo. Quanto a isso, vale a pena observar como os sonhos relatados no romance — cenas, aliás, em que Dostoiévski se esmera — transcorrem, em regra, no ambiente rural, em clara contraposição à dimensão urbana. Não por acaso, o crítico russo Leonid Grossman viu no livro um “romance da cidade grande do século xix, em que o vasto pano de fundo da capital capitalista determina o caráter dos conflitos e dos dramas”.

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Nos primeiros rascunhos, Crime e castigo tinha a forma de uma confissão, com narração na primeira pessoa. Nesse caso, o crime já havia acontecido antes da narração, era parte do passado. Em seus cadernos de anotações, Dostoiévski explica por que preferiu, posteriormente, mudar para uma narração “do autor”: “É preciso inocência e sinceridade. É preciso supor que o autor é um ser onisciente e infalível, que expõe, aos olhos de todos, um dos membros da nova geração”. Mesmo assim, na versão final, como o leitor atual pode observar, persiste a presença direta da voz da consciência do protagonista, entremeada na voz narradora. A composição híbrida imprime dinamismo à narração e confere mais amplitude à dimensão psicológica do romance.

Essa observação nos remete à questão do estilo de Crime e castigo e à sua escrita, entrecortada por uma profusão de ressalvas, advérbios, conjunções adversativas e expressões de ênfase de toda sorte. Palavras como vdrug [de repente] são usadas sem parcimônia e, não raro, ocorrem duas ou mais vezes num só parágrafo ou até na mesma frase. Os períodos muitas vezes avançam sinuosos, deixam lacunas pelo caminho, que serão preenchidas a seguir, quer pelo contexto quer por novas afirmações. O resultado tende a ser uma sintaxe “convulsiva”, para usar um termo do gosto do autor. No conjunto, deparamos com um texto tão turbulento quanto a fala ou o pensamento dos personagens. Daí provém o insistente recurso à oralidade, à linguagem informal e espontânea, o que denota, por outro lado, a maneira como o romance se apoia em elementos extraídos da linguagem teatral. Esta tradução fez o possível para preservar esses traços.

Por último, vale ressaltar que todas as seis partes do livro recobrem apenas doze dias, enquanto o epílogo, de poucas páginas, abrange nove meses. Tal desproporção está respaldada num procedimento literário em que a ação concentrada, no tempo físico, se desdobra em análise expandida, no espaço da mente. Isso também propicia um dos expedientes em que Dostoiévski atinge seus melhores resultados: a transfiguração da anedota cotidiana em tragédia. Noutras palavras, a revelação do invariável no circunstancial. 

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Rubens Figueiredo é tradutor e escritor. Traduziu obras de Gógol, Tolstói, Turguêniev, Dostoiévski e Tchékhov, entre outros, incluindo nossas edições de Infância, adolescência, juventude, A ilha de Sacalina e Crime e Castigo. Recebeu os prêmios Jabuti, Portugal Telecom e São Paulo de romance e os de tradução da Biblioteca Nacional, APCA e Academia Brasileira de Letras. 

 
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