Claudia Cavalcanti, tradutora de O TEMPO ADIADO E OUTROS POEMAS, de Ingeborg Bachmann, entrevista o irmão da poeta na Alemanha; confira

Por Claudia Cavalcanti

“Lá no campo, na cidadezinha onde morávamos, já se dizia, naqueles anos, com certo orgulho: ‘Ela é uma poeta.’”, diz Heinz Bachmann

 

Quando precisei de autorização da família para consultar o acervo de documentos de Ingeborg Bachmann na Biblioteca Nacional da Áustria, em Viena, recebi os endereços eletrônicos dos irmãos dela, gestores de seu espólio. Escrevi para Isolde Moser, 90 anos, e Heinz Bachmann, 80 anos recém-completados, 13 anos mais novo que a famosa irmã, doutor em geofísica e residente na Inglaterra. Os dois responderam com rapidez e gentileza, mas logo a troca de e-mails com o irmão caçula da poeta se intensificou, e descobrimos que ele estaria em Viena na mesma época que eu, em agosto de 2018.   

No primeiro encontro, do qual também participou meu marido Arthur Nestrovski, logo percebemos que se tratava de um homem afável, com experiência suficiente para lidar com as questões contemporâneas prementes. A simpatia mútua foi quase instantânea. Ele estava animado com a publicação dos poemas de Ingeborg Bachmann no Brasil, sobretudo porque havia planejado uma viagem até aqui com a mulher Sheila. Meses depois, fomos até o Rio encontrá-los. Nosso terceiro encontro aconteceu em Hamburgo, em maio de 2019, como será possível ler mais abaixo. Enquanto não nos revemos novamente, e-mails vão e vêm.

Muito solícito, Heinz Bachmann leu em Hamburgo alguns poemas que selecionamos juntos, gravados por nós em vídeo (ver abaixo), e depois respondeu por e-mail a algumas perguntas. Tudo isso, na condição de que nada atrapalhasse as aulas de canto que passou a ter, especialmente para mandar arquivos de áudios à netinha que mora em Nova York, como incentivo para aprender a língua alemã com a ajuda de canções austríacas, e para que também a pequena não esqueça a voz do avô.

 

(Claudia Cavalcanti)

 

Que lembrança de sua irmã Ingeborg Bachmann resiste mais fortemente e quais são aquelas relacionadas à atividade literária dela? 

As lembranças fundamentais que tenho de minha irmã foram mudando muito ao longo dos anos. Quando ela saiu de casa, eu só tinha seis anos, mas ela sempre voltava nas férias ou no Natal. Naquele tempo, ela era a irmã mais velha, que cuidava de mim e, com a outra irmã, Isolde, me protegeu das bombas, durante a guerra. Nos meus anos de juventude, quando não tínhamos nada, ela sempre conseguia arrumar para mim, com seu amigo Hans Weigel [intelectual que, naqueles anos, reunia em torno de si e estimulava muitos jovens escritores], livros de literatura juvenil. Eram o meu presente preferido. Mas lá no campo, na cidadezinha onde morávamos, já se dizia, naqueles anos, com certo orgulho: “Ela é uma poeta.” Em todo caso, desde criança e adolescente ela ocupou um lugar especial na família, e mesmo na escola era chamada de “le hibou” [a coruja]. Quando eu estava no ginásio, se tornou clara para mim a importância dela na literatura. Minha irmã ficou famosa rapidamente por conta de seus poemas, e eu também não tinha como escapar daquela fascinação e beleza. Sempre volto a ler esses poemas não apenas para mim, mas também em eventos, porque neles há algo de universal, e os temas dos poemas também estão encontrados em sua prosa. Por isso, para mim é uma grande alegria a publicação de uma tradução brasileira de poemas selecionados. Já adulto – ela lia, vez ou outra, algo que estava escrevendo, como o Livro Franza, no qual também citou trechos de minha dissertação. Eram momentos especiais. Toda a família acompanhava seu sucesso literário com grande atenção, colecionava as publicações e resenhas. Mas o mais importante eram os dias e horas com nossos pais. Ela era capaz de contar histórias e casos anedóticos maravilhosamente bem. Entre 1967 e 1971 fui visitá-la em Roma – primeiro sozinho; depois, com minha mulher. Eram dias sempre agradáveis – saíamos para comer bem, íamos à praia em Ostia ou dançávamos até as primeiras horas da manhã.

 

O senhor é o autor de fotografias muito conhecidas de Ingeborg Bachmann, como aquela diante do espelho ou jogando xadrez. Pode contar ao leitor brasileiro como isso aconteceu?

Acho que em 1961 meu pai me deu uma câmera Agfa. Sem entender muito de fotografia, fiz algumas tentativas com a máquina antes de nossa viagem a Roma, em abril de 1962. Meus pais e eu fomos de carro a Roma e visitamos Ingeborg na Via de Notaris 1F. Lá, ficamos alguns dias, e Ingeborg me deu três filmes p&b (1 de 36, 2 de 20 poses) e me pediu para tirar algumas fotos dela, já que não andava satisfeita com as fotos da imprensa. Como que por milagre, quase todas as fotos ficaram boas – aquela sorte do iniciante. As fotos foram feitas em parte no apartamento, em parte nos arredores, como na Villa Borghese ou perto do Fórum Romano.

 

Quais são os critérios usados para a liberação de suas obras, para reprodução, tradução ou inspiração para as mais diversas expressões artísticas?

Minha irmã Isolde e eu somos, afinal de contas, responsáveis pela diversidade de direitos, embora os tenhamos entregue, em geral, às editoras – que, no entanto, em caso de dúvida, sempre levam em conta nossa opinião.

O que depõe contra uma publicação? Quando, em cartas, a vida privada é muito invadida. Isso diz respeito também a pessoas citadas nessas cartas. Elas também têm direito à proteção de sua esfera privada. Mas no caso das cartas a Paul Celan e Hans Werner Henze, há uma ligação muito estreita, fazendo com que correspondência e obra ultrapassem o interesse pela vida privada. Não são sempre decisões fáceis, e por isso devem ser discutidas com o correspondente e as editoras.

 

Creio terem sido muito importantes duas iniciativas relativamente recentes, em relação ao espólio de Ingeborg Bachmann. Poderia falar um pouco sobre elas? 

Todo o espólio literário e a correspondência (exceto as cartas de família) está conservado na Biblioteca Nacional em Viena e acessível para a edição da nova obra completa crítica, em 30 volumes, a Salzburger Ausgabe, organizada pela Universidade de Salzburgo e coeditada pela Suhrkamp e Piper, e preparada pela família.

 

Imagino que muitos já tenham lhe perguntado se chegou a conhecer Paul Celan, ou se sua irmã em algum momento lhe falou sobre ele, apesar da diferença de idade entre vocês e da reserva dela em relação à vida pessoal. 

Infelizmente, não conheci Paul Celan. Na família falava-se dele com frequência, mas essencialmente como um grande poeta. Também foi evidente que seu suicídio chocou e sobrecarregou emocionalmente minha irmã [Bachmann morreria apenas três anos depois de Celan]. No mais, falávamos sobre nossos problemas pessoais, quando eu era mais velho. Isso, de fato, não era tabu.

  

Em 2018, o senhor veio ao Brasil pela primeira vez, até por conta de uma ligação familiar, um parentesco indireto. De onde vem esse interesse pelo Brasil? 

Em 2018, fui ao Brasil com minha mulher – um sonho antigo, que por fim foi realizado. Sem falar das muitas belezas do país, eu queria ir também a Treze Tílias, em Santa Catarina, onde quase morei com meus pais. Em 1932, nosso pai se filiou ao NSDAP [partido nacional-socialista], e a partir de 1945 ficou desempregado por muito tempo. Quase não tínhamos o que comer. Ele fez contato com Treze Tílias, pensando em voltar a dar aulas. O plano foi por água abaixo quando meu pai conseguiu voltar a lecionar. A cidadezinha realmente parece ser um pedaço de Tirol no Brasil, o que para mim foi mesmo impressionante.

 

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Poemas selecionados em vídeo: 

 

Reklame

 

Sombras rosas sombras

 

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Claudia Cavalcanti (1963) é natural de Recife (PE). Estudou germanística na Universidade de Leipzig (Alemanha). Atua como crítica e tradutora. Traduziu Kleist, Goethe, Paul Celan, Peter Sloterdijk, Michael Ende, entre outros. Publicou a antologia Poesia Expressionista Alemã (2000) e De Profundis – Poemas de Georg Trakl (1994) e Cristal, de Paul Celan (1999). Ainda sobre o expressionismo, escreveu A literatura expressionista alemã (1995).


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