Música e O VENDIDO

Paul Beatty não costuma ouvir música quando escreve, mas escreve sobre música em seus livros.

Quando esteve na Flup, no ano passado, citou The Story of O.J., do Jay Z, e O VENDIDO tem várias referências musicais ao longo da história. Veja alguns trechos em que isso acontece:



Página 13:

(...) me considerar “um improvável precursor da geração hip-hop”, aos moldes de Luther “Luke Skyywalker” Campbell, o rapper de dentes separados que lutou pelo direito de se divertir e de parodiar os brancos como eles fizeram com a gente por anos. Se fosse eu quem estivesse julgando, ia pegar a caneta da mão do presidente Rehnquist e escrever o longo voto dissidente, a rmando de maneira categórica que “nenhum rapper maluco cuja música mais famosa é ‘Me So Horny’ tem direitos que o homem branco ou que qualquer outro B-boy digno do seu Puma de camurça precise respeitar”.

 

Página 21:

São as mãos de uma poeta, de uma daquelas professoras com cabelos naturais e braceletes de latão cujos versos elegíacos comparam tudo ao jazz. O parto é como o jazz. Muhammad Ali é como o jazz. A Filadélfia é como o jazz. O jazz é como o jazz. Tudo é como o jazz, exceto eu. Para ela, sou como uma versão remixada de uma música negra numa apropriação anglo-saxã. Sou Pat Boone com um rosto negro cantando uma versão aguada de “Ain’t That a Shame”, de Fats Domino. Sou todas as notas do rock britânico não punk palhetadas e dedilhadas desde que os Beatles tocaram aquele acorde que fica ecoando na cabeça na abertura de “A Hard Day’s Night”. E o que você me diz de Bobby “What You Won’t Do for Love” Caldwell, Gerry Mulligan, Third Bass e Janis Joplin?, eu queria gritar para ela. E Eric Clapton? Peraí, retiro o que eu disse. Foda-se o Eric Clapton.

 

Página 70:

Invariavelmente, tocando suave no fundo, fazendo ondular as cortinas que passam pelas portas de vidro de correr, sempre está Nina Simone. Foi com essas mulheres que meu pai avisou para ter cuidado. Mulheres drogadas e confusas que ficam sentadas no escuro, sem grana e apaixonadas, fumando um cigarro atrás do outro, fones apertados na orelha, apertando a discagem rápida para a K-Earth 101 FM, a estação das canções do passado, e pedindo Nina Simone ou “This Is Dedicated to the One I Love”, também conhecida como “Essa eu dedico para os negos que me espancaram até me deixar inconsciente e depois foram embora”. “Fique longe de mulher que gosta de Nina Simone e tem amigo veado”, meu pai dizia. “Elas odeiam homens.”

 

Página 72:

Sendo otimista, sou um agricultor de subsistência, mas três ou quatro vezes por ano, engato um cavalo numa carroça e troto por Dickens, vendendo minhas mercadorias, com “Watermelon Man” do Mongo Santamaría tocando no último volume. É sabido que essa música já fez parar jogos da pré-temporada de basquete no meio de um ataque avassalador, pôs fim precoce a maratonas de apertar-campainhas-e-sair-correndo e de pular corda, e forçou mulheres e crianças que esperavam o último ônibus para a visita de fim de semana à cadeia do distrito de Los Angeles a tomar uma difícil decisão.

 

Página 250:

Ao som da música mais branca que a gente conseguia imaginar (Madonna, The Clash e Hootie & the Blowfish), a molecada, de traje de banho e shortinho jeans, dançava e ria na água quente e na espuma. Ignorando a luz âmbar da sirene, corriam debaixo da cascata de cera de carnaúba. Demos balas e refrigerantes e deixamos que ficassem na frente dos secadores o quanto quisessem. Lembrando a eles que ter um jato de ar quente soprando no rosto é a exata sensação de ser branco e rico. Que a vida para uns poucos felizardos é como estar no banco da frente de um conversível vinte e quatro horas por dia.


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