Não fiz nada de errado, em primeiro lugar

Por David Runciman

David Runciman, autor de COMO A DEMOCRACIA CHEGA AO FIM, resenha MEDO: TRUMP NA CASA BRANCA, de Bob Woodward

 

Ninguém poderia contestar que ter Trump na Casa Branca é uma questão existencial: as decisões do presidente têm o potencial de colocar um ponto final em muitas vidas, incluindo as nossas. Os riscos dificilmente poderiam ser maiores. Por que, então, ao ler sobre isso sentimos, muitas vezes, como se estivéssemos lendo sobre qualquer outro local de trabalho disfuncional? As intensas facadas pelas costas e puxa-saquismo parecem incompatíveis com a seriedade da situação. Contribuem para um ambiente profundamente estranho e curiosamente familiar. É quase impossível imaginar como seria trabalhar na Ala Oeste esses dias, considerando o quanto parece desassociada de qualquer coisa que ocorreu lá antes. Ainda assim, qualquer um que tenha trabalhado com um chefe narcisista embriagado de seu próprio poder o reconhecerá de cara. A frivolidade do mundo de Trump é como a frivolidade do nosso mundo, mas com armas nucleares.

[...]

Os livros anteriores de Bob Woodward sobre políticas presidenciais frequentemente pareceram hermeticamente lacrados, tão intenso era o foco em quem estava no aposento e no que acontecia ali. Ele é especialista no que a gente pode chamar de procedimentos burocráticos, em que a partir de um profundo trabalho jornalístico ele constrói um quadro de decisões importantes que emergem do acúmulo de pequenos poderes em uma máquina complexa. Mas sempre foi claro, desde Watergate, que o mundo que está do lado de fora é o que realmente importa. Essas foram lutas para controlar o destino do mais poderoso Estado do mundo, no qual o destino de muitos outros Estados – do Vietnã ao Iraque, Afeganistão e Síria – dependiam. Com Trump é diferente: o que acontece entre quatro paredes muitas vezes parece ser tudo o que há. Nessa Casa Branca, o mundo exterior luta para ter uma visão do lado de dentro. Você realmente tem que estar ali, porque nada mais existe.

[...] 

Os relatos exatos de Woodward de reuniões e gritarias – e são raras as reuniões que não acabam em gritaria – têm fontes anônimas, mas nunca é muito difícil identificar quem falou o quê. Qualquer um que trabalhe com pessoas nas quais não confia e não suporta tem uma versão em sua cabeça de como uma reunião deveria ter evoluído e o que seria bom ter dito. Esprit d’escalier é a língua franca da Casa Branca de Trump. Para cada situação descrita por Woodward, há geralmente um fragmento de diálogo que soa como algo que alguém gostaria de ter dito. Sem dúvida alguma Woodward está gravando o que estão contando a ele. Mas o que estão contando está sendo lembrado por pessoas incentivadas a parecer que enxergaram além da estupidez de Trump e assim teriam então dito a ele. 

[...]

A pessoa que mais parece ser ela mesma em todo o relato é quem Woodward reconhece logo no começo não ter concedido entrevista para o livro: Trump. O presidente surge como um personagem bizarro e brutal, mas seu comportamento tem uma marca consistente. Ele não suporta estar errado e nunca vai admitir derrota. Ele muda de ideia, mas só porque esquece o que já fez. Quando arraigadas, suas opiniões são imutáveis.

[...]

O tema mais consistente de todo o livro é a irritante obsessão do presidente em ter indicado as pessoas erradas para servi-lo, ou ter mantido outros em seus cargos por tempo demais. É marcante o quanto de suas conversas é gasto contratando e demitindo pessoas. Sendo Trump, ele nunca acredita que seu julgamento foi falho. O que ele pensa é que foi enganado na etapa da entrevista.

[...]

Uma vez que Trump decide que não quer você, isso significa que você já está fora. Você não volta por outra porta. A não ser que Trump seja a pessoa que abra essa porta. Muitas vezes, ele se posiciona a favor ou contra as pessoas por um capricho, fortemente influenciado por gostar ou não de sua aparência.

[...]

De maneira geral, Woodward conta sua história de forma direta e deixa que o leitor conclua a moral, apesar de também garantir que seja difícil perdê-la. Eventualmente, ele fornece algum comentário para deixar isso claro.

[...]

No fim, é impossível evitar a conclusão de que a impressão que temos de Trump é a correta. O modelo para sua presidência é o reality show. O personagem principal está interpretando um papel que depende de suas próprias palavras e ações, e ainda assim é inteiramente artificial. O drama é organizado em torno de uma série de confrontos que dão a impressão de que tudo está em jogo quando, no entanto, nada está realmente em jogo. Cada episódio termina com algumas pessoas ficando e outras sendo mandadas de volta para casa. Isso parece ser de enorme importância na hora e ainda assim é difícil lembrar, de uma semana para a outra, porque qualquer pessoa se importou com aquilo. De uma temporada para a outra é difícil até mesmo recordar quem eram os principais participantes e às vezes os vencedores são os mais difíceis de lembrar.

[...]

Isso poderia ser O Aprendiz. Ainda assim, algo está faltando. Tive uma forte sensação de que Trump me lembrava alguém que tinha visto regularmente na TV, mas não era o Donald Trump da TV. Daí eu entendi. O ambiente de trabalho que essa Casa Branca nos faz lembrar é o de um reality show que exibe um nível profundo de verdade sendo inteiramente irreal. O livro de Woodward se parece mais com uma paródia de um documentário do que com qualquer outra coisa, e a pessoa com quem Trump mais se parece é David Brent, do seriado The Office. Ele tem a inadequação, a maldade automática, a auto-ilusão cômica. Mas ele também tem algo do pathos. Ele ainda tem momentos em que sua incapacidade de ver qualquer coisa além da situação é exatamente o que a situação precisa.

[...]

É inegável que Trump é um mentiroso. Mas as mentiras não são a essência do que ele é. São um produto de sua carência combinada com sua inabilidade em deixar que outra pessoa dê a última palavra. Seus conselheiros não conseguem fazer com que ele peça desculpas por qualquer coisa porque ele nunca pode ser visto voltando atrás.

_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _

Trechos da resenha publicada no volume 40 da London Review of Books.

 

Full Squad