Meu amigo Raul, por Roberto Menescal

Por Roberto Menescal

Diretor artístico da Polygram/Philips na década de 1970, Menescal descreve episódios de sua convivência com Raulzito

 

“Conheci Raul Seixas em uma apresentação na TV Globo durante o Festival da Canção, no início dos anos 1970. Eu estava no corredor do Hotel Continental, antes de começar a sessão, e então passou o Raul, com uma maletinha tipo 007, e falou: “Rapaz, que bom te encontrar aqui. Eu sou Raul Seixas, compositor, estou inscrito no festival, você quer ouvir minha música?”. Eu disse “vamos, você está com gravador, com um cassete aqui?”. E aí ele ligou o cassete e me mostrou a música Let me sing, let me sing. Eu falei “ó, Raul, me interessa”.

Na época, eu era diretor da Polygram e sugeri que gravássemos um compacto simples. Ele falou “mas também tenho outra pessoa, um compositor de quem eu gosto muito e que também está inscrito no festival, se você quiser ouvir.” Foi aí que ele me mostrou o Sérgio Sampaio e a música Eu quero botar meu bloco na rua. Me interessou também, quis ficar com os dois.

Ele foi lá na companhia [Polygram] e a gente combinou uma gravação. Ele levou o Sérgio Sampaio, e acabei fazendo o arranjo para Eu quero botar meu bloco na rua.  Os dois foram muito bem no festival, as músicas saíram e principalmente a do Sérgio Sampaio vendeu bem, em uma semana foram quase 100 mil discos (compactos). Raul vendeu algo em torno de 25 mil. 

Depois disso, marquei um almoço com ele. “Pô, Raul, que presente você nos deu, o Sérgio Sampaio está vendendo muito bem.” Ele respondeu “sim, mas eu quero te prevenir de uma coisa: existem artistas número um, e artistas número dois. O Sérgio Sampaio é um bom número dois”, disse.“E você, Raul?”, perguntei. “Eu sou um bom número um”, ele respondeu. “Mas o Sérgio está vendendo bem mais que você”, desafiei. Então Raul disse “é verdade, mas você vai ver que, aos poucos, o disco do Sérgio vai parando e o meu disco vai passando à frente”. E foi isso o que aconteceu.

Aprendi com Raul essa coisa do artista número um e número dois. Que ambos valem muito. Ele falava “você vai perceber que o Sérgio é um cara um pouco pra baixo, cada vez que ele vai na televisão defender a coisa dele, ele para de vender, vende menos”. E prosseguiu: “a cada vez que eu vou, vendo mais”. Ele de fato se vendeu muito bem, tanto que a gente acabou gravando vários discos na Polygram.

Tivemos uma relação muito próxima, e ele trouxe também o Paulo Coelho. “Paulete é meu parceiro, meu confidente, a gente arma as coisas todas juntos, você vai gostar muito dele.” Acabei contratando o Paulo também, sem saber para quê. Inventei um termo, ‘gerente de serviços criativos’, e foi ótimo, porque realmente ele é um cara muito criativo. Trabalhávamos em função dos lançamentos do Raul, foi assim por anos e anos, Sociedade alternativa, essas coisas. Um dia, talvez já no terceiro ou quarto disco do Raul (por volta de 1974), nós três estávamos na Lagoa Rodrigo de Freitas, à noite, sentados num banco. Raul falou “ih, olha lá perto do Corcovado, lá em cima, um disco voador”. Eu olhava, olhava e não via nada. O Paulo também ficou olhando, então perguntei: “Paulo, você está vendo?”. Ele respondeu que não. Eu disse “Raul, você não vai conseguir nos convencer de que tem um disco voador quando dois de nós não estamos vendo”. Raul disse que estávamos ficando loucos, foi quando percebemos que era o contrário.

Fui até onde pude com ele. Sempre muito criativo, até que os problemas começaram a crescer. Logo vi que não tinha mais controle sobre a arte do Raul. Foi aí que nos desquitamos. Falei “Raul, não está dando para a gente trabalhar”. Ele foi para outras gravadoras e daí em diante a gente sabe tudo o que aconteceu.

Ainda tentei uma última estratégia para Raul e Paulo voltarem a compor: um novo projeto. Raul falou “tudo bem, eu faço com Paulete, desde que ele venha a São Paulo”. Paulo respondeu “eu faço, desde que ele venha para o Rio”. Assim, fiz uma proposta para os dois: “vamos fazer o seguinte, no meio do caminho entre Rio e São Paulo existe a cidade de Itatiaia, e lá em cima tem um hotel, onde vocês podem ir para compor”. Os dois toparam.

Quando o Paulo chegou lá, eu disse “vai me passando as notícias”. E ele me dizia “olha, o Raul está aqui, mas não consegui vê-lo ainda, está trancado no quarto”. Pedi para que me informasse novamente à noite. “Raul está aqui, mas não veio jantar”. No dia seguinte, “Raul está aqui, mas não desceu para o café da manhã, está trancado desde ontem, sem comer, sem nada”. E completou: “Vou ficar mais um pouco e depois vou embora”. Minha estratégia não deu certo, e foi esse meu último contato com Raul. Uma pena, um talento incrível. Um cara que entrou em todas as camadas de gente do Brasil, mas perdeu o controle.  

 

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Depoimento de Roberto Menescal, instrumentista, arranjador, cantor e produtor musical. Foi um um dos compositores mais importantes da bossa nova. Como diretor artístico da gravadora Polygram/Philips na década de 1970, produziu, entre outros, Raul Seixas, Arnaldo Baptista, Nara Leão, Tom Jobim e Caetano Veloso.

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