Neil Gaiman sobre TUDO QUE É BELO

Por Neil Gaiman

No prefácio de TUDO QUE É BELO, o escritor Neil Gaiman conta como ele conheceu e se tornou parte do projeto.

Recebi uma lista de coisas que queriam que eu fizesse no PEN World Voices Festival em Nova York. Tudo parecia muito claro exceto por uma coisa.

“O que é o Moth?”, perguntei. Era abril de 2007.

“O Moth é um negócio de contar histórias”, me disseram. “Você fala sobre coisas reais que te aconteceram, diante de uma plateia.” (É possível que tenha havido na história humana outras respostas como essa, que, embora tecnicamente corretas, omitem tudo o que de fato importa, mas assim de improviso não me ocorre nenhuma.)

Eu não sabia nada sobre o Moth, mas concordei em contar uma história. Parecia fora de minha zona de conforto e, portanto, algo sensato a fazer. Fui avisado de que um diretor do Moth me procuraria.

Falei ao telefone com o diretor do Moth dias depois, meio desconcertado: afinal, por que eu tinha que falar sobre a minha vida para outra pessoa? E por que outra pessoa tinha que me dizer qual era o sentido da minha história?

Só comecei a entender o significado do Moth quando apareci para o ensaio de leitura e conheci Edgar Oliver.

Edgar era uma das pessoas que estavam contando suas histórias naquela noite. A história dele pode ser lida, mas na leitura você não capta sua bondade, sua franqueza, e também não desfruta de sua notável entonação, que é o tipo de entonação que um vampiro da Transilvânia apaixonado por teatro talvez adotasse para interpretar Shakespeare, acompanhada de movimentos de mão elegantes que enfatizam, pontuam e comentam a natureza do que ele está nos dizendo, seja sobre o gótico sulista ou sobre questões pessoais em Nova York. Fiquei vendo Edgar narrar sua história no ensaio de leitura (ele conseguiu cortar uns dez minutos quando a contou no palco, e parecia que eu nunca tinha ouvido antes), e eu soube na hora que queria fazer parte daquilo, seja lá o que fosse.

Contei minha história (nela eu tinha quinze anos e vagava sozinho pela Liverpool Street Station, esperando por pais que nunca viriam), e a plateia ouviu e riu e vibrou e no final aplaudiu e eu me senti como se tivesse caminhado sobre brasas e sido abraçado e amado.

De algum modo, sem pretender, eu tinha me tornado parte da família Moth.

Assinei o podcast do Moth, e a cada semana alguém me contava uma história real que lhe ocorrera e que mudaria minha vida, nem que fosse um pouquinho.

Alguns anos mais tarde eu estava num velho ônibus escolar, rodando pelo sul dos Estados Unidos, com um punhado de contadores de histórias, narrando nossos casos em bares, museus de arte, clubes de idosos e teatros.

Eu falava sobre como encontrei, na beira da estrada, um cachorro que me salvou; sobre meu pai e meu filho; sobre a encrenca em que me meti na escola aos oito anos por contar uma piada muito suja que tinha ouvido dos garotos mais velhos.

Assistia aos outros contadores de histórias narrando partes de si mesmos noite após noite: sem anotações, sem nada decorado, sempre parecidas, sempre verdadeiras e sempre, de algum modo, novas.

Visitei algumas das “Storyslams” (*Adaptação para a narrativa do conceito de Poetry Slam, uma competição de breves declamações de poemas ao vivo, submetidas ao julgamento do público presente) do Moth, em que pessoas escolhidas ao acaso sobem ao palco e competem pelo amor e pelo respeito da plateia. Assisti às histórias que elas contavam e contei ali minhas próprias histórias (fora de competição, antes ou depois do fim do concurso). Vi gente fracassar ao tentar contar suas histórias, e vi gente partir o coração dos presentes ao mesmo tempo em que os inspirava.

O estranho nas histórias do Moth é que nenhum dos truques que usamos para que os outros nos amem ou nos respeitem funciona do modo como imaginávamos que funcionaria. As narrativas que mostram como somos espertos, como vencemos, quase sempre fracassam. As piadas já testadas e as sacadas espirituosas se espatifam e se reduzem a cinzas no palco do Moth.

A honestidade conta. A vulnerabilidade conta. Ser franco quanto a quem você era no momento em que atravessava uma dificuldade ou estava num lugar impossível conta mais do que qualquer outra coisa.

Ter um lugar onde a história começa e um lugar para onde ela vai: isso é importante.

Contar sua história do modo mais honesto possível e deixar de lado coisas desnecessárias, isso é vital.

O Moth nos conecta como seres humanos. Porque todos temos histórias. Ou talvez porque já somos, na condição de humanos, uma colagem de histórias. E o abismo entre nós enquanto indivíduos existe porque quando olhamos uns para os outros talvez vejamos rostos, cor da pele, gênero, raça ou atitudes, mas não as histórias, pois não temos como vê-las. E quando ouvimos as histórias uns dos outros percebemos que o que vemos como coisas que nos separam são, com muita frequência, ilusões, falsidades: que os muros entre nós não são, na verdade, mais espessos que muros cenográficos.

O Moth nos ensina a não julgar pelas aparências. Ensina-nos a ouvir. Lembra-nos da importância da empatia.

E agora, com estas histórias maravilhosas, ele nos ensina a ler.

 

Assista ao Neil Gaiman contando uma história no palco do The Moth.


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