Vacinar ou não?

Eula Biss investiga a polêmica em IMUNIDADE

A vacina, principal arma que temos contra os vírus, está no centro de uma polêmica que, como quase tudo atualmente, está infestada de dados duvidosos. Movida pelo desejo materno de proteger o próprio filho recém nascido e seguindo a trilha de ensaios pessoais como os de Susan Sontag, Eula Biss mergulha na ciência da imunidade e em metáforas mitológicas e culturais para tentar entender o que está por trás das vacinas e do medo da vacinação. Aqui, trechos do livro respondem 5 perguntas importantíssimas sobre o tema.




Por que é importante se vacinar mesmo se você não está em “grupos de risco”?

 

Se imaginarmos a ação de uma vacina não apenas no modo como ela afeta um único corpo, mas também em como ela afeta o corpo coletivo de uma comunidade, é justo pensar na vacinação como uma espécie de banco de imunidade. As contribuições para esse banco são doações para aqueles que não podem ou não serão protegidos por sua própria imunidade. Esse é o princípio da imunidade de grupo ou efeito rebanho, e por meio dessa imunidade que a vacinação em massa torna-se muito mais eficaz do que a vacinação individual. É por isso que as chances de contrair sarampo podem ser maiores para uma pessoa vacinada que vive numa comunidade em grande parte não vacinada do que para uma pessoa não vacinada que vive numa comunidade amplamente vacinada. A pessoa não vacinada é protegida pelos corpos ao seu redor, corpos pelos quais a doença não está circulando. Mas uma pessoa vacinada cercada por corpos que hospedam a doença torna-se vulnerável à falha da vacina ou à imunidade enfraquecida. Somos protegidos não tanto pela nossa própria pele, mas pelo que está além dela. Aqueles que se valem da imunidade coletiva devem sua saúde à saúde de seus vizinhos. (página 23)

 

Quais são as estatísticas relacionadas a efeitos colaterais?

 

Os temores quanto às vacinas não parecem ser facilmente aplacados pela abundância de análises realizadas por peritos da relação risco-benefício nelas, que nos asseguram que o bem que fazem é muito maior do que o dano. Os efeitos secundários graves da vacinação são raros. Mas é difícil quantificar exatamente quão raros eles são, em parte porque muitas das complicações associadas às vacinas também são causadas pelas infecções naturais que as vacinas deveriam prevenir. Infecções naturais de sarampo, caxumba, catapora e gripe podem causar encefalite, um inchaço do cérebro. Não sabemos qual seria a taxa básica de encefalite em uma população sem doença e sem vacinação contra a doença. Mas sabemos que um em cada mil casos de sarampo leva à encefalite, e que a encefalite foi relatada após a vacinação em cerca de uma em cada 3 milhões de doses da vacina tríplice (contra sarampo, rubéola e caxumba). Essa incidência é tão baixa que os pesquisadores não conseguiram determinar definitivamente se a encefalite é causada pela vacina. (página 39)

 

A vacina realmente causa autismo?

 

Em 1998, o gastroenterologista britânico Andrew Wakefield propôs uma teoria segundo a qual eram as empresas farmacêuticas, em vez de mães, que estavam causando o autismo. A publicação na revista Lancet de seu estudo de caso, agora desdito, com doze crianças foi acompanhado por um vídeo promocional e uma entrevista coletiva, na qual Wakefield deu apoio às suspeitas de pais que já acreditavam que as vacinas eram inseguras. Seu artigo especulava que a vacina tríplice poderia estar ligada a uma síndrome comportamental que incluía sintomas de autismo. Embora a publicidade em torno do artigo de Wakefield tenha provocado uma queda dramática na vacinação contra o sarampo, o próprio artigo concluía: “Não provamos uma associação entre a vacina contra sarampo, caxumba e rubéola e a síndrome descrita” e a principal conclusão era que seriam necessárias mais pesquisas. Ao longo da década seguinte, vários estudos não conseguiriam encontrar uma relação entre a vacina tríplice e o autismo, e até mesmo pesquisadores simpáticos à hipótese de Wakefield foram incapazes de reproduzir seu trabalho. Em 2004, um jornalista investigativo descobriu que a pesquisa de Wakefield fora paga por um advogado que preparava um processo contra um fabricante de vacinas. (página 74-75)

 

Por que existe mercúrio nas vacinas? Ele é seguro?

 

Refletindo sobre a pesquisa que fora realizada nos treze anos decorridos desde a declaração da AAP sobre timerosal, um artigo de 2012 da revista Pediatrics concluiu: “Não há nenhuma prova científica confiável de que o uso de timerosal em vacinas represente qualquer risco para a saúde humana”. Em 120 países, vacinas contendo timerosal são atualmente usadas para salvar um número estimado de 1,4 milhão de vidas a cada ano. O timerosal é essencial para as vacinas de dose múltipla, que são menos dispendiosas de produzir, armazenar e enviar do que as vacinas de dose única. Alguns países preferem vacinas de dose múltipla, não só porque elas têm uma relação custo-benefício melhor e produzem menos resíduos do que as vacinas de dose única, mas também porque não necessitam de refrigeração. Existem lugares, principalmente em países mais pobres, onde a proibição do timerosal significaria efetivamente uma proibição da vacinação contra difteria, coqueluche, hepatite B e tétano. (página 95-96)

 

É perigoso fazer muitas vacinas de uma vez só?

 

A vacina contra a varíola que meu pai recebeu continha proteínas muito mais imunizantes, ou ingrediente ativo, por assim dizer, do que qualquer uma das vacinas que usamos hoje. São a essas proteínas que o sistema imunológico reage quando reage a uma vacina. Nesse sentido, uma única dose da vacina contra a varíola que nossos pais receberam representava um desafio maior ao sistema imunológico do que o desafio total representado por todas as 26 imunizações para catorze doenças que agora damos aos nossos filhos ao longo de dois anos. Em resposta à pergunta sobre quantas vacinas seriam demais, Offit determinou que uma criança poderia teoricamente lidar com um total de 100 mil vacinas ou até 10 mil vacinas de uma só vez. (página 116-120)


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