O VENDIDO em forma de clipe

Vídeo de Childish Gambino que viralizou esta semana ecoa o romance premiado de Paul Beatty

O clipe This is America, de Childish Gambino, provocou uma catarse típica do mundo conectado dos dias atuais. Repleto de referências pop-sociopolíticas do debate racial norte-americano, deu a largada para uma competição nas redes para ver quem conseguia desvendar os segredos entre as imagens que se sucedem numa velocidade frenética.

Pode ser a piscada esquisita de Donald Glover nos primeiros momentos do vídeo (uma referência ao personagem de quadrinhos Uncle Rukus, um negro idoso racista, defensor de George W. Bush e da violência policial contra os negros americanos) à pose que antecede o disparo de um tiro contra um homem encapuzado (que lembra uma imagem emblemática do personagem de Jim Crow, criado por um branco que em 1900 pintava o rosto de preto – Blackface – para ridicularizar os negros).

O espírito geral da obra, contudo, provocativa, satírica, agressiva, que produz um estado de permanente desconforto, foi moldado pelo livro O vendido, de Paul Beatty (Todavia). A associação entre ambos, pelo menos para mim, ficou evidente logo de cara. Em primeiro lugar, por razões emocionais. Estava acabando de ler o livro quando assisti ao clipe no YouTube. E os dois me causaram sensação parecida: uma mistura de embrulho no estômago com a excitação de estar diante de um talento criativo com capacidade de causar confusão mental, provocando incertezas sobre discussões que já vinham mantendo certa estabilidade. O desequilíbrio pode ser bom porque provoca movimento.

Em segundo, pelo próprio estilo das duas obras, se é que se pode cometer o disparate de colocar um videoclipe e um livro lado a lado. Com a devida vênia, nesse caso a comparação faz sentido. O livro de Paul Beatty também vem repleto de referências e se desdobra em incontáveis camadas, difíceis de ser assimiladas por um leitor que não esteja profundamente envolvido com a história violenta dos Estados Unidos, da escravidão à luta por direitos civis, de Rosa Parks a James Baldwin; de Tiger Woods a Mike Tyson; hip-hop, Tupac, gangsta rap, jazz, maconha, guetos, pelos movimentos como Black Lives Matter, pelos programas de tevê populares e séries, comediantes de stand-up, entre tantas citações pop – principalmente – mas também históricas e eruditas, explícitas ou nas entrelinhas.

São obras que poderiam se aproveitar do espaço infinito da internet para ser divulgadas com hiperlinks, que levassem a outras páginas e informações para aprofundar o mergulho no mundo além dos nossos próprios olhos.

Há ainda os protagonistas das duas obras. O livro de Paul Beatty – premiado com o Man Booker Prize em 2016, a primeira vez que um norte-americano foi agraciado – é narrado por um negro, filho de pai solteiro, que planta maconha e melancias num pequeno rancho na periferia de Los Angeles. O pai, cientista social, o transforma em uma cobaia humana para seus estudos de psicologia social. Depois que o pai é morto por um policial, o narrador – apelidado de Bombom – adquire um escravo, que se oferece voluntariamente para servir ao dono. Hominy, o escravo, é um ator aposentado de um seriado racista de antigamente. O narrador vai parar na Suprema Corte por tentar reestabelecer a escravidão e a segregação racial em sua cidade.

Assim como o protagonista do clipe de Childish Gambino, o narrador de Paul Beatty assume o papel de vilão de sua própria raça para, durante a trama, desconstruir os mitos da sociedade pós-racial que surgiria depois da eleição de Barak Obama. Iconoclastas, as obras disparam contra estereótipos da cultura do entretenimento, fortemente influenciada por artistas negros, que se esmeram na celebração do sistema, com músicas, dança, drogas, dinheiro e consumo, enquanto o mundo caminha em marcha à ré.

A semelhança entre as duas obras também não deixa de ser irônica. É como se, depois do videoclipe, o incômodo artístico provocado pela obra de Paul Beatty já tivesse sido assimilado pela indústria cultural. Childish Gambino vai gerar milhões de dólares e influenciar outros cantores e artistas. O incômodo da questão racial vai ser consumido. Os brasileiros também vão assistir aos vídeos e discutir suas referências, problematizando o debate racial aqui e lá. Tudo divertido e informativo. Mas por algum motivo que ainda não compreendemos, a sociedade vai continuar violenta e racista. E continuaremos nos divertindo e festejando enquanto o mundo desmorona.

Bruno Paes Manso é jornalista, pesquisador no Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo e autor de A Guerra, livro sobre o PCC, em parceria com Camila Dias, que será lançado em agosto pela Todavia.


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