Cristóvão Tezza e a orelha de ENQUANTO OS DENTES

Por Cristóvão Tezza

O escritor fala sobre o romance de estreia de Carlos Eduardo Pereira

Em nenhum outro lugar a relação elástica entre tempo e espaço é mais concretamente percebida do que na boa literatura. Afinal, escrever é antes de mais nada criar um narrador, colocá-lo em algum lugar e em algum momento, e soltar as cordas do reconhecimento do mundo a partir dali com a simples força da linguagem. Em seu primeiro romance, Carlos Eduardo Pereira põe o leitor numa cadeira de rodas, assumindo integralmente o olhar de Antônio, que está fazendo a mudança de seu antigo apartamento e indo para a casa dos pais, no outro lado da baía.

É uma breve e solitária viagem de balsa de um homem em torno dos 40 anos, com alguns poucos encontros fortuitos. Tudo que sabemos é o que Antônio sabe; o narrador, em terceira pessoa, não entrega nada sem antes passar pelo filtro do olhar e da memória do personagem. Só contamos com ele, o que já implica uma empatia, porque ele também não tem muita alternativa na sua curta travessia. É um ponto de partida mínimo, espacialmente aprisionado nos limites daquela cadeira opressiva e de um destino que se apresenta sem opções. E, por força do tema, o narrador enfrentará uma sequência perigosa de armadilhas sentimentais a acompanhá-lo em cada metro de avanço, o que poderia deixar o leitor, este ser naturalmente arisco, de sobreaviso.

Acontece que este livro tem um narrador poderoso. Desde a primeira linha há uma frieza e um senso de observação concreta da realidade física (normalmente inacessível aos bípedes distraídos), um olhar para o chão dos detalhes de que, literalmente, sua vida depende, que vai arrastando o leitor a uma espécie irresistível de dupla realidade, de uma surpreendente nitidez. O seu realismo, que se faz por meio da tranquilidade desconcertante de quem não quer mentir, é um ponto de encontro, sem ênfase nem derramamentos, do inescapável mundo físico com o incerto mundo mental. Na travessia, a máquina da memória refaz uma vida inteira: as surras que sofreu na infância pelo pai autoritário, a mãe anulada pela vida familiar, as lembranças e fuga da escola militar, a opção sexual e o trauma do acidente: está tudo ali, movendo-se frase a frase, sempre exatas, em direção a uma chave que, como na boa literatura, só o leitor poderá dar. ENQUANTO OS DENTES é uma bela estreia de um prosador completo.

 

Na sexta-feira dia 17/11, às 11h, Carlos Eduardo Pereira estará na FlinkSampa participando da mesa "Interações literárias entre o Brasil e a América Latina", com Luiz Gonzaga Bertelli, Teresa Cárdenas (Cuba), Shirley Campbell Barr (Costa Rica), e mediação de Éle Semog. Esperamos você!


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